Líderes exprimem ideais ultraconservadores em seus corpos, suas roupas e em comportamentos públicos Melania Trump e Ivanka Trump, mulher e filha de Donald Trump em sua posse: corpos contidos pelo visual austero — Foto: CHIP SOMODEVILLA/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 06/06/2026 - 15:50 Extrema Direita Revive Símbolos Fascistas em Estética Conservadora Movimentos de extrema direita resgatam símbolos fascistas, refletindo em padrões estéticos ultraconservadores. Homens são incentivados a corpos musculosos, enquanto mulheres a uma magreza extrema, reforçando papéis de gênero tradicionais. Essa estética serve a uma ideologia que valoriza a "família tradicional" e controla a expressão feminina, promovendo uma narrativa supremacista e nacionalista. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Inspiradas por movimentos de quase um século atrás, forças políticas de extrema direita contemporâneas resgatam símbolos outrora usados pelos fascistas. Uma iconografia que se reflete tanto na composição dos gabinetes de alto escalão desses governos, quanto nas roupas e até nos corpos dessas lideranças — majoritariamente masculinas e brancas — e de suas companheiras. Para essa doutrina política — baseada em ordem, controle e disciplina — é importante assumir e demonstrar papéis de gênero muito específicos e bem definidos. Homens são influenciados a alimentarem corpos cada vez mais musculosos, em sinal de força e liderança. Em contraponto, os visuais “delicados” das mulheres reforçam sua “energia feminina” e as posicionam como seres frágeis carentes de proteção, além de puros, cujos corpos precisam ser escondidos e preservados. Nesse contexto, o culto à magreza — às vezes extrema — entre mulheres, volta a chamar atenção. — Ter um corpo magro e tonificado é visto como ter controle sobre si mesmo, o próprio corpo e a própria vida — analisou Lois Shearing, jornalista que pesquisa as relações entre mulheres e a extrema direita, ao GLOBO. Com a valorização da ideia de “família tradicional”, restrita a padrões brancos, cisgêneros e heteronormativos, núcleos familiares como o do secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, se tornam referência de um padrão estético, moral e de devoção ao propósito político e religioso dessa ideologia. Além de cultivar um corpo musculoso, repleto de tatuagens com referências religiosas, e um visual sempre engomado, com barba e cabelos bem cortados, Hegseth põe em prática ideais supremacistas e nacionalistas religiosos. Em diversas ocasiões, o “secretário de guerra” — como seu cargo foi rebatizado após o retorno de Donald Trump à Casa Branca —, considerado um dos principais herdeiros políticos do trumpismo, usou o discurso religioso para justificar o conflito contra o Irã, como uma espécie de “guerra santa”. Acenos aos cristãos O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, com a mulher, Jennifer Cunningham, em Washington: casal é referência de padrão estético — Foto: Haiyun Jiang/The New York Times Recentemente, em decisão historicamente incomum, Hegseth bloqueou a promoção de ao menos sete oficiais militares já aprovados por um conselho de almirantes, sendo duas mulheres e dois homens negros. Para críticos, a motivação seria a oposição do secretário a políticas de diversidade. Sem explicações públicas, ele também demitiu ou afastou quase 30 oficiais-generais em um ano e meio de mandato como parte de uma campanha para remover do Pentágono líderes que classificou como “tolos”, “imprudentes” ou “woke”, termo usado para se referir a um conjunto de pautas progressistas. — Essa ideia da ética protestante de que trabalhar duro e se privar de coisas te aproxima de Deus também se encaixa nessa ascensão da supremacia da magreza. As pessoas estão vendo superioridade moral em se privar do prazer de comer — salientou. — E em exercitar o corpo em excesso de uma forma que consideram moralmente superior. Em outro setor de poder, bilionários da tecnologia como Jeff Bezos, da Amazon, e Mark Zuckerberg, da Meta, presentes na posse de Trump em 2025, também abandonaram os clássicos visuais de “nerds” e hoje se posicionam como magnatas da indústria, com corpos musculosos e exibindo itens de luxo. Lauren Sanchez Bezos e o esposo, o bilionário dono da Amazon Jeff Bezos — Foto: Krista Schlueter / The New York Times Por outro lado, Jennifer Cunningham, esposa de Hegseth, cumpre o padrão físico e também comportamental. Antes produtora na Fox News, hoje ela desempenha publicamente o papel de esposa e mãe dedicada, que cuida da educação dos sete filhos do casal (seis de casamentos anteriores) em sistema de homeschooling (educação domiciliar). Em suas aparições ao lado do marido, ela frequentemente usa vestidos com cores discretas e pouca pele à mostra, além de sapatos de salto alto. O que pode parecer mera formalidade faz parte da estética que busca controlar a expressão e o comportamento femininos. A primeira-dama americana, Melania Trump, aparece como figura central dessa dinâmica complacente. Reconhecida por sua “discrição extrema”, ela raramente concede entrevistas, se posiciona, fala em público ou aparece ao lado do marido em ocasiões não-oficiais. Esse comportamento, que é retratado no documentário recém-lançado sobre Melania, é clássico da postura submissa e apolítica que a extrema direita procura emplacar nas mulheres. Publicamente, o centro do universo de Melania parece ser seu estilo, marcado por roupas estruturadas, de linhas austeras e uma paleta de cores bem definida, além dos chapéus, luvas e sapatos de saltos. Seu visual chama a atenção pela elegância e impecabilidade, mas também por características contidas, que remetem a controle, privação e rigidez. Ao passo que movimentos antifeministas derivados da machosfera ganham espaço no debate público e nas redes sociais, termos como “tradwives” (esposas tradicionais) e “homens alfa” avançam no vocabulário popular, principalmente entre jovens. A mesma narrativa ultraconservadora que demanda dos homens identidade de dominância, exige das mulheres comportamento submisso, centrado em gestar e cuidar. 'Guardiãs da raça' Assim, a saúde das mulheres é tópico de profundo interesse porque o controle sobre seus corpos implica no controle sobre os bebês gestados por elas. Fiscalizar a magreza — e a saúde enquanto sinônimo — desses corpos significa supervisionar a produção de herdeiros daquela agenda. Sob a perspectiva extremista de que mulheres detêm uma “sexualidade mais depravada e incontrolável”, pontua Lois, é necessário dominá-las a fim de evitar que “prejudiquem” a conservação da suposta “pureza racial” das nações. — Pessoas com útero são vistas como “guardiãs da raça”, e elas poderiam escolher não ter filhos com homens brancos. O controle desses corpos é fundamental para impedir a geração de crianças mestiças. Lois explica que a ideia de magreza como padrão de moralidade no Ocidente surge no Reino Unido no século XIX. Com a escravização de africanos, a sociedade britânica passou a ter mais contato com corpos negros, cujas características mais avantajadas foram estigmatizadas como sinal de uma “sexualidade mais aparente”. Neste contexto, em que mulheres brancas eram consideradas “superiores”, as britânicas foram encorajadas a manter curvas menores para se diferenciar das negras. Muitas mulheres, em maioria brancas, ressalta Lois — que passou anos infiltrada em blogs da machosfera —, reproduzem esse discurso não apenas por alienação ou conformidade política, mas por serem cooptadas por movimentos machistas. Sua pesquisa revelou que as prioridades desse público são subvertidas por uma dinâmica de poder social. Ao se aliarem a homens brancos, elas garantem uma suposta “proteção e status superior” graças à sua branquitude, ao invés de se unirem ao “lado oprimido” da sociedade e lutarem pelos direitos das minorias. Insatisfação que paralisa A influenciadora Liv Schmidt ganhou fama nas redes ao compartilhar dicas nem sempre saudáveis de emagrecimento. Sua conta no TikTok foi banida em 2024 por “violações das diretrizes da comunidade”. Segundo críticos, as infrações teriam conexão com “promoção de distúrbios alimentares”, o que ela nega. Com mais de 320 mil seguidores no Instagram, Liv se apresenta como “coach de perda de peso” e fundadora da “Skinni societé”, uma comunidade que ela diz ser destinada a acolher mulheres que desejam emagrecer. “Skinni é uma mentalidade. Não é restrição. É bom gosto. Não é desordem. Apenas disciplina. Estrutura. Não fome”, diz a descrição da página. O nome da comunidade compõe uma adaptação da palavra “skinny” (magra) que, segundo Liv, teria adquirido uma conotação ruim relacionada a “morrer de fome”. A nutricionista Fernanda Imamura destaca que sua prática no consultório evidencia “o quanto padrões de beleza são um projeto político e uma forma de silenciar mulheres e mantê-las distantes de posições de poder”. Especialista em transtornos alimentares, ela carrega um mantra de sua militância feminista: “Não se destrói o patriarcado com fome”. — Escrevi essa frase já faz um tempo, mas infelizmente ela ainda é atual. Eu percebo o quanto mulheres que fazem dietas restritivas ficam focadas nisso. Há de fato algumas passando fome. E estão o tempo todo pensando em comida, em corpo, insatisfeitas com a própria imagem, e não sobra tempo e energia para fazer nada. Fernanda defende que, apesar de a magreza se manter como padrão de beleza mesmo durante os últimos anos — em que o movimento de aceitação corporal e a valorização de “corpos reais” ganhou mais espaço — o movimento de busca pelo corpo magro parece ter se intensificado como resposta ao avanço da pauta feminista. — No momento em que mulheres estão conseguindo mais liberdade e autonomia, e ocupando mais lugares importantes, esse padrão se torna ainda mais inalcançável e irreal. Agora não basta só não comer, você também tem que “se matar” na academia.