Aposta dobrada na direita radical também é desafio para oposição, que busca mensagem unificadora para derrotar o trumpismo Movimento 'Façam os Estados Unidos Grande de Novo' tem se afastado de Trump — Foto: Brendan Smialowski/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 24/05/2026 - 20:31 Movimento Maga se radicaliza e ameaça dividir Partido Republicano O movimento Maga, anteriormente alinhado a Trump, está se afastando para adotar pautas mais extremas e antidemocráticas para 2028, como restrições ao voto de mulheres e minorias. Com Trump perdendo popularidade, o Partido Republicano enfrenta uma divisão interna, com a ascensão dos Groypers, um grupo de extrema direita. Enquanto isso, os democratas buscam uma estratégia unificadora para enfrentar a crescente radicalização da direita. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO No calendário político americano, as eleições de 2028, quando, pela primeira vez em 12 anos, o eleitor não terá a opção de votar em Donald Trump, começam em pouco mais de cinco meses. Não se trata de queimar a largada. É com o mapa do novo Congresso, dos governos e dos legislativos estaduais nas mãos, a partir dos resultados do pleito de meio de mandato, em novembro, que republicanos e democratas iniciam a construção das coalizões com potencial de levá-los à Casa Branca. Para a direita, além do desgaste com um governo extremamente impopular, há dor de cabeça extra este ano com a migração ideológica da barulhenta militância do Faça os Estados Unidos Grandes Novamente (Maga, na sigla em inglês) ainda mais para o extremo. A defesa aberta de pautas antidemocráticas, ente elas o fim do voto das mulheres e a supressão da representação dos negros no Legislativo, embaralha os cenários pós-Trump e oferece oportunidade a uma oposição ainda acéfala, em busca de mensagem unificadora para derrotar o trumpismo. Lá se vão quase 500 dias de retorno à Casa Branca e o Trump 2.0 não cumpriu promessas centrais à militância. A inflação está ainda mais alta do que no fim do governo de Joe Biden, com projeção anual da OCDE atualizada para 4,2%, bem a cima dos 2,7% estimados pelo Federal Reserve na virada do ano. Os bolsos estão mais vazios e os tarifaços fracassaram em revigorar a indústria e multiplicar empregos de colarinho azul, de onde vem o grosso do Maga. Ao mesmo tempo, o presidente se afastou dos princípios originais do "América em primeiro lugar", notadamente com a guerra sem fim aparente contra o Irã. — Na prática, o Maga, tal qual o conhecemos, morreu. Em vários estados ocorreu algo novo nas primárias republicanas, com a ala corporativa se unindo aos Groypers na assustadora defesa de práticas de supressão de votos de minorias e das mulheres para vencer as disputas — afirma ao GLOBO o diretor do grupo de pesquisa Open Markets Institute, Barry Lynn, referência no estudo de movimentos políticos. Os Groypers são um movimento de extrema direita, predominantemente jovem, fundado pelo ativista Nick Fuentes, de 27 anos, com forte presença digital e mensagem nacionalista cristã, antissemita, xenófoba e misógina. Uma minoria cada vez mais barulhenta e que, nas palavras de Lynn, "defende a captura do poder e seu exercício em benefício de uma oligarquia cristã e branca". Apesar de ter nascido no ecossistema do Maga, durante o Trump 2.0 passou a considerá-lo insuficientemente radical. Se uniram a grupos conservadores cristãos da América Profunda na defesa, inconstitucional, de um voto "de família", em que o homem votaria duas vezes, ou mais, no caso de filhas adultas e solteiras. E engordam os números de jovens conservadores que, nas pesquisas, como na New York Times/Siena divulgada na semana passada, são maioria ao clamar por um rumo "diferente do trumpismo" para o futuro do Partido Republicano. Parte dos mais novos apoiam com ânimo, por exemplo, nas primárias, James Fishback para o governo da Flórida. O candidato afirmou que homens brancos cristãos são "as maiores vítimas do racismo e da globalização: referiu-se ao seu oponente Byron Donalds, que é negro, como "escravo do lobby pró-Israel". Em reportagem publicada no fim do mês passado, a New Yorker traduz os Groypers como "uma tempestade prestes a se abater sobre a política americana", vê cenário de guerra civil no Maga e publica, de forma reservada, depoimento de um alto funcionário do governo Trump que aponta 75% de jovens assessores políticos de republicanos com cargos eletivos hoje simpatizantes da facção, por conta da "migração ainda mais à direita de uma maioria silenciosa em busca de direção no pós-Trump". Apoiadores de James Fishback para o governo da Flórida usam bonés com slogan do Maga e camisetas com a imagem do influenciador de extrema direita Nick Fuentes — Foto: Scott McIntyre/The New York Times No fim de abril, um dos maiores especialistas no Partido Republicano na academia americana, o historiador Julian E.Zelizer, publicou texto intitulado "Por que a nova geração de republicanos deve ser mais extrema do que o Maga". Nele, traça um cenário em que o Trump 2.0, com todo seu caos global, é percebido em futuro próximo como mais moderado do que o que vem em seguida. "As decisões que os líderes do Partido Republicano tomarem no futuro próximo sobre como desejam que seu partido seja lembrado nos livros de história terão enorme impacto, e para toda política americana", escreve. Uma leitura apressada dos resultados das primeiras primárias republicanas para vagas no Senado e na Câmara indica mais fumaça do que fogo. E que o controle do presidente de seu partido e do Maga, mesmo com popularidade com recorde negativo de 37%, de acordo com a média do New York Times, seguem intactos. Os candidatos que apoiou venceram quase todas as disputas internas. O mesmo deve acontecer amanhã, na apertada disputa para o Senado no Texas, com o radical Ken Paxton, ungido pela Casa Branca, destronando o incumbente, John Cornyn. O buraco, no entanto, é mais embaixo, aponta o jornalista David A. Graham, da revista The Atlantic. O autor de "O projeto", best-seller em que detalhou a construção do plano de ação da revolução conservadora do Trump 2.0, destaca que, por um lado, como no caso de Paxton, Trump muitas vezes só deu sua benção a candidatos após a emergência, com apoio maciço da base, de nomes ainda mais à direita no universo do Maga. Por outro, ele arrisca uma vitória de Pirro ao dobrar a aposta em nomes muito distantes dos eleitores independentes, escancarando ainda mais a janela de oportunidade percebida pelos democratas no pleito de novembro. "A tentativa do presidente de transformar as eleições em um referendo sobre si mesmo pode ter sido bem sucedida, até agora, na disputa interna e pelo comando do Maga, mas também erodido ainda mais sua posição com o eleitorado geral", escreveu em sua newsletter. Especialista em disputas estaduais americanas, o cientista político Tyler Simko, da Universidade de Michigan, enfatiza que as primárias republicanas desse ano têm confirmando um movimento central para o pós-Trump. Como pensam os republicanos: veja o que mostram pesquisas — Foto: Arte/O GLOBO — A tendência de o Partido Republicano se mover ainda mais à direita é fato. E, embora os democratas também sigam se afastando mais do centro, a polarização está ficando ainda mais "assimétrica", com a normalização, à direita, de posições cada vez mais radicais, exatamente como a primeira geração do Maga, negacionista, fez ao questionar a integridade do sistema eleitoral — afirma Simko ao GLOBO. O acadêmico sublinha ainda que as eleições de novembro podem indicar o fator mais determinante para o futuro do Maga, ao oferecer pistas sobre quem sairá mais forte internamente como figura de proa do pós-Trump. — Não há hoje um nome óbvio no Partido Republicano que consiga unificar a sigla, de cima para baixo, como Trump fez. O vice-presidente JD Vance é criticado pela militância mais extremista e a sucessão passará por alguém habilidoso o suficiente para divergir do Trump 2.0 sem implodir o legado da atual Casa Branca — diz Simko. Na oposição, que observa com gosto a ebulição na direita, também há armadilha significativa, aponta Barry Lynn, do Open Markets Institute. É tentador concorrer em novembro como o partido anti-Trump. Mas o Partido Democrata precisa, ele também, argumenta, "do livramento de poder planejar um futuro sem o atual presidente como protagonista". — Para se ter fôlego até 2028 é preciso formular uma visão de futuro centrada na inclusão e na ampliação do acesso a bens e serviços, com menor custo de vida, em contrapartida ao exclusivismo dessa direita ainda mais extrema. Jogar no outro lado a pecha de elitista. Ou desperdiçarão oportunidade rara de virada de tabuleiro político, com consequências não apenas para a política americana, mas planetária — afirmou Lynn ao GLOBO