Toda vez que o Peru troca de presidente, escolhe um desconhecido azarão ou deposita sua fé em figuras autoritárias que acabam se transformando em algozes da oposição, analistas e meios de comunicação repetem a mesma explicação: o país vive uma crise política permanente da qual parece impossível sair.

Quase como se fosse uma maldição. Mas não é.

A atual instabilidade é resultado de processos históricos muito mais longos, ligados à desigualdade, à perda de poder econômico e à dificuldade de construir instituições legítimas e duradouras. Os sinais da crise são conhecidos: fragmentação institucional, corrupção, presidentes que perdem apoio rapidamente e um Congresso formado por partidos frágeis ou efêmeros.

O mais intrigante, porém, não é que os governantes durem pouco. É que o país continue funcionando. Ao longo das últimas décadas, o Peru derrubou presidentes, dissolveu consensos políticos e viu partidos históricos desaparecerem. Ainda assim, exporta, cresce, atrai investimentos e produz riqueza.

Talvez a pergunta correta não seja por que o Peru vive em crise. Talvez seja por que aprendeu a viver sem acreditar na política. Para entender essa excepcionalidade é preciso voltar muito antes de Dina Boluarte ou Alberto Fujimori. Muito antes, até mesmo, da República.