Com Banco Central independente, país tem moeda forte e preços sob controle, apesar de instabilidade política Os candidatos à presidência do Peru, Keiko Fujimori (à direita), do partido Fuerza Popular, e Roberto Sánchez (à esquerda), do partido Juntos por el Peru, acenam durante um debate em Lima, antes do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 7 de junho — Foto: ERNESTO BENAVIDES/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 06/06/2026 - 17:16 Peru Enfrenta Eleições com Economia Estável em Meio à Instabilidade Política Apesar de uma década de instabilidade política e oito presidentes, o Peru mantém uma economia estável e vai às urnas com a moeda forte e inflação controlada, graças à independência do Banco Central. A eleição opõe Keiko Fujimori e Roberto Sánchez, em um cenário de polarização e desafios estruturais, como informalidade e baixa produtividade. O futuro econômico do país depende da continuidade política e das políticas públicas formuladas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Foram oito presidentes na última década, vários deles destituídos após protestos ou envolvidos em escândalos de corrupção, pelo menos três governos de transição, uma tentativa de autogolpe, um ex-presidente preso e uma ex-presidente sob investigação. Mas, apesar da instabilidade política, o Peru vai às urnas hoje para escolher entre a candidata de direita Keiko Fujimori e o candidato de esquerda Roberto Sánchez com a menor inflação média da região entre os países não dolarizados, uma economia estabilizada e a moeda forte — em relação ao dólar, por exemplo, o sol peruano acumulou uma desvalorização próxima do zero em 25 anos, contra cerca de 200% do real. A mesma Constituição, de 1993, que criou mecanismos que permitem tanto ao Congresso remover presidentes por “incapacidade moral” quanto ao presidente dissolver o Parlamento em determinadas circunstâncias, determinou que o Banco Central de Reserva do Peru (BCRP) seja uma instituição independente e protegida de interferências políticas. 20 anos no cargo Isso criou uma contradição: apesar da instabilidade política constante, com um ambiente de confronto entre os poderes quase permanente, o Peru possui fortalezas macroeconômicas invejáveis, mais próximas das observadas em países desenvolvidos. — O BCRP é uma instituição blindada contra a ingerência política justamente porque essa autonomia está garantida pela Constituição. É isso que permite a estabilidade monetária e macroeconômica do país e, nesse aspecto, a instituição tem cumprido bem seu papel — afirma ao GLOBO Giovanna Aguilar, professora titular do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Peru. — Isso fez com que, apesar das crises internas e externas, o sol peruano preservasse seu valor e a economia seguisse uma trajetória que, embora não seja a melhor em termos de crescimento, ao menos manteve os preços sob controle, uma condição que considero necessária para o desenvolvimento econômico, ainda que insuficiente por si só. O presidente do Banco Central, Julio Velarde, está no cargo desde 2006, o que, para Diego Macera, diretor do Instituto Peruano de Economia (IPE) e ex-diretor do BCRP, contribuiu significativamente para a solidez e a estabilidade da instituição. Velarde foi reconduzido ao cargo por governos de diferentes orientações políticas, uma continuidade incomum na América Latina. Ao longo das últimas décadas, também foram mantidos os acordos econômicos de abertura comercial ao exterior, o papel limitado do Estado na atividade empresarial e a liberdade de iniciativa privada e de preços, entre outros aspectos. A pergunta, segundo Macera, é “o que teria acontecido com a economia peruana se o país não estivesse mergulhado em uma crise política aparentemente interminável?”. — Muito provavelmente, teria crescido de forma mais robusta. A crise política teve um custo elevado, e sua principal consequência é um setor público cada vez menos operacional e eficiente — explica ao GLOBO. — O exemplo mais emblemático disso é que o Estado já nem consegue organizar eleições minimamente satisfatórias. Além da volatilidade política, que faz com que os ministros permaneçam, em média, apenas seis meses no cargo, a trajetória fiscal de médio prazo já começa a gerar preocupações devido a iniciativas consideradas irresponsáveis por parte do Congresso, aponta o economista. Macera acrescenta ainda problemas estruturais, como a elevada informalidade e a baixa produtividade, que exigem soluções de longo prazo. Aguilar concorda que a crise política está cobrando seu preço em relação ao desenvolvimento do país. Apesar de desfrutar de excelentes preços para os minérios, principal fonte de entrada de divisas da economia, o Peru apresenta um crescimento modesto: — Isso ocorre porque o crescimento depende das políticas públicas formuladas pelo Executivo. A instabilidade política impediu a continuidade dessas políticas de Estado. Soma-se a isso a profunda deterioração da capacidade técnica dos ministérios e das instituições responsáveis por prestar serviços públicos e melhorar a infraestrutura do país. Ainda assim, para a especialista, a economia peruana continuará crescendo enquanto os preços dos minérios permanecerem elevados: — As instituições públicas estão profundamente deterioradas do ponto de vista técnico devido à captura do Estado que ocorreu ao longo da crise política — afirma a professora da Pontifícia Universidade Católica do Peru. — Todos os grupos que chegaram ao poder nos últimos dez anos o fizeram com o objetivo de se apropriar da máquina estatal, desmontando os quadros técnicos de muitas instituições-chave responsáveis pela formulação de políticas públicas capazes de melhorar a qualidade de vida da população e criar condições para um desenvolvimento mais robusto e sustentável. Continuidade econômica Já para Macera, a vitória de Keiko Fujimori representaria uma continuidade das políticas econômicas. — Pode não agradar a muitos, mas é um cenário bastante mais previsível e alinhado ao modelo que já conhecemos e que tem funcionado — diz ele, destacando que Sánchez tem “uma plataforma da esquerda radical” e “pessoas muito controversas ao seu redor”. — A promessa de uma nova Constituição, na mesma linha do que ocorreu em determinados momentos no Equador, na Bolívia e na Venezuela, é o aspecto mais prejudicial, na minha avaliação. Ainda assim, não está claro se ele teria força suficiente no Congresso para levar essa proposta adiante dentro de um marco de respeito às regras democráticas.