A escritora Estelle-Sarah Bulle diz estar acostumada com episódios de racismo, tanto que eles se tornaram a espinha dorsal de sua literatura. Sua cor de pele, negra, explica isso.

O racismo também explica por exemplo, por que quando foi tomar café da manhã em seu hotel no Brasil, ela se perdeu, acabou encontrando alguém da gerência e, perguntando aonde deveria ir, foi encaminhada para um lugar reservado a funcionários.

Já passou por isso antes. Se vai passar férias em Guadalupe, território francês no Caribe e terra do seu pai, é comum acontecer episódios similares. Escuta de outros hóspedes, brancos, perguntas como "onde fica o toalete?", ou o lugar para deixar a roupa suja. "Pensam que faço parte do pessoal que trabalha no hotel, e a cada vez fico dizendo, ‘não sei, sou cliente como vocês’."

Em Cuba, um policial a tomou por uma prostituta rondando o hotel onde na verdade estava hospedada. "Às vezes sou brasileira, às vezes sou cubana." A nacionalidade varia. "Mas a cada vez sou remetida à categoria social que se projeta sobre os negros em geral. Isso é uma experiência que todas já vivemos."

Ela compartilhou suas experiências com o racismo nesta sexta-feira, numa mesa da Feira do Livro com a também escritora Bianca Santana, colunista deste jornal. O papo foi mediado por outra mulher negra, Adriana Ferreira Silva.