"Se eu fosse escrever cada humilhação a qual fui submetida por conta da cor da minha pele, em diferentes continentes, incluindo o meu próprio. Se eu fosse mencionar as revistas aleatórias em aeroportos, apesar de ter passado por todos os processos de visto. Se. Eu escreveria muitos livros."

Zukiswa Wanner, autora do trecho acima, escreveu mesmo muitos livros. Nascida na Zâmbia, em 1976, filha de uma zimbabuana e de um sul-africano exilados, acaba de se mudar do Quênia para a África do Sul.

No último sábado (16), mediei uma conversa com a autora no Festival Literário de Araxá, em Minas Gerais.

Sua mãe, ativista da então Rodésia, tentou atravessar ilegalmente a fronteira para que os avós conhecessem a neta. Foram presas quando Zukiswa tinha dois anos. Décadas depois, ela ainda descreve o terror de ver uma policial branca interrogando sua mãe enquanto ela chorava no colo.

O trauma racial, em sua obra, parece-me inseparável do trauma autoritário. E a escrita, segundo me respondeu, é, sim, uma forma de elaboração do trauma, apesar de não ser a principal motivação de sua literatura. Ela escreve porque sabe que a literatura muda o mundo.