O estresse que se estabeleceu no mercado doméstico de renda fixa nesta semana foi ampliado no pregão desta sexta-feira (5), após dados oficiais do mercado de trabalho ― o chamado "payroll" ― dos Estados Unidos reforçarem a perspectiva por algum aumento de juros na principal potência econômica global. Com isso, as taxas futuras no Brasil entraram em uma espiral negativa que as levou aos maiores níveis intradiários e de fechamento desde abril do ano passado, à medida que os investidores precificam o fim do ciclo de cortes da Selic e até embutem algum prêmio de alta de juros à curva. Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento de janeiro de 2027 subiu de 14,295%, do ajuste anterior, para 14,43%; a do DI de janeiro de 2028 avançou de 14,375% a 14,725%; a do DI de janeiro de 2029 saltou de 14,425% para 14,81% e a do DI de janeiro de 2031 teve forte alta de 14,41% a 14,71%. Nas máximas intradiárias, as taxas alcançaram os níveis de 14,43%, 14,73%, 14,82% e 14,745%, respectivamente. Com exceção da taxa do DI de janeiro de 2027, de curtíssimo prazo, todas as outras três batem os seis maiores níveis desde abril do ano passado, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central ainda estava aumentando a taxa Selic. Com o movimento deste pregão, o mercado colocou de vez um ponto final à expectativa de que o ciclo de corte de juros continue na próxima decisão do Copom, em 17 de junho. Ainda que haja alguma chance disso, ela agora é minoritária. No mercado de opções, os investidores precificam 62% de chance de manutenção da Selic em 14,50% neste mês, contra 45% de probabilidade de outro corte de 0,25 ponto percentual — ontem, os percentuais fecharam em 46% e 55%, respectivamente. Há, ainda, uma chance marginal de 1,8% de que o Copom aumente a Selic para 14,75%. Embora isso ainda não esteja no horizonte da maioria dos economistas, o mercado já embutem na curva alguma possibilidade de que os juros voltem a subir nos próximos meses. “Acreditamos que a autoridade monetária tomará a decisão acertada e interromperá seu ciclo de calibração. Além disso, a incorporação recente de novos riscos altistas — tanto para a inflação quanto para o quadro fiscal — faz com que uma eventual discussão sobre retomada das altas de juros já não possa ser descartada”, diz a carta mensal de gestão da Genoa Capital, divulgada hoje. Importantes casas revisaram as suas projeções para a taxa Selic a fim de incorporar um cenário de juros mais altos. Entre elas, o Bank of America (BofA) passou a projetar apenas mais um corte de 0,25 ponto, a 14,25%, e diz esperar que o ciclo de flexibilização seja reiniciado apenas em meados de 2027. Além da piora já observada no quadro inflacionário, a equipe de economistas liderada por David Beker, chefe de economia para Brasil e estratégia para América Latina do BofA, acrescenta que os estímulos fiscais e creditícios do ano eleitoral têm atrasado os ajustes necessários à demanda interna, ao passo em que fatores como o fim da escala de trabalho 6x1 e o El Niño adicionam mais riscos à inflação local. “Nesse ambiente, o espaço para mais flexibilização é limitado, e a barra para novos cortes tornou-se significativamente mais alta, em consonância com o retorno a um cenário de juros mais altos por mais tempo. Dito isso, não vemos aumentos da Selic no horizonte”, diz o relatório assinado por Beker. Apesar da deterioração do cenário, o BofA não vê o Copom aumentando os juros neste ano ou no próximo. De visão um pouco mais otimista, o BNP Paribas espera que o BC volte a cortar em dezembro deste ano, a uma Selic de 14% no fim de 2026. “Acreditamos que será difícil para o Copom justificar a continuação do ciclo de flexibilização nos próximos meses. Interromper o ciclo na próxima reunião permitiria ao BCB avaliar melhor a materialização dos riscos, ao mesmo tempo em que reforçaria seu compromisso com a meta [de inflação] de 3%, protegendo a credibilidade do comitê conquistada ao longo do último ciclo de aumento das taxas”, argumentam as economistas Fernanda Guardado e Laiz Carvalho, que não veem. — Foto: Gerd Altmann/Pixabay
Juros futuros sobem às máximas em um ano e mercado vê pausa no ciclo de cortes do BC
A taxa do DI com vencimento para janeiro de 2027 subiu de 14,295%, do ajuste anterior, para 14,43% e a do DI para janeiro de 2031 teve forte alta de 14,41% a 14,71%







