O divórcio ou a separação de um casal é um processo de transição complexo que exige a reorganização de toda a família, através de mudanças que podem gerar instabilidade emocional, económica e social. Durante esta fase, surgem desafios, alteram-se rotinas e há decisões a tomar que trazem insegurança, tornando a gestão positiva da ruptura um fator determinante para o equilíbrio dos envolvidos.A evidência científica é clara ao definir que os preditores mais fortes de bem-estar das crianças e adolescentes após o divórcio dos pais incluem a forma como os adultos gerem a conflitualidade interparental e a qualidade da coparentalidade. É, então, neste contexto, que a comunicação entre a díade parental assume um papel essencial. Quando funcional e centrada nas necessidades e direitos dos filhos, ganha um poder regenerador capaz de favorecer uma coparentalidade positiva e oferecer aos filhos a estrutura necessária para viverem este momento com segurança.Ao utilizarem canais diretos de comunicação, sem carga negativa, os adultos promovem a estabilidade dos filhos e transformam-se num valioso fator de proteção, facilitando o desenvolvimento da força emocional e da resiliência. Pais focados em proteger os filhos esforçam-se por separar os problemas do ex-casal das responsabilidades parentais, dando prioridade à relação de proximidade com a criança ou com o adolescente, preservando, assim, o vínculo com ambos os pais e com a família alargada.Uma comunicação construtiva entre os pais após a dissolução da relação conjugal representa um poderoso fator de adaptação porque previne o conflito e potencia a identificação de dificuldades e a inerente procura de soluções, ajustadas às necessidades dos filhos. Esta atitude ponderada, que prioriza um diálogo funcional e empático, favorece o desenvolvimento da resiliência nas crianças e jovens, dando-lhes a liberdade de permanecer onde devem estar — no papel de filhos — ao mesmo tempo que preservam uma relação afetiva positiva com ambos os progenitores.Conversas e mensagens pautadas pela fluidez, respeito e clareza, longe de críticas, e verdadeiramente centradas nos filhos, libertam-nos do peso da mediação e dos conflitos de lealdade. É neste sentido que as fronteiras comunicacionais entre pais e filhos devem abrir-se para permitir que a criança ou o jovem se sinta à vontade para contactar o pai ou a mãe quando se encontra na casa do outro progenitor.Ao validarem esta autonomia emocional, os pais dão aos filhos o poder de gerir os seus afetos de forma livre, sem culpa ou receio de magoar qualquer um dos pais, e com a segurança de que a sua base de apoio permanece estável, apesar do subsistema conjugal ter terminado. Desta forma, a reorganização familiar após o divórcio deixa de ser percecionada como uma perda e passa a ser entendida como uma transição que assegura a continuidade do suporte emocional e do desenvolvimento saudável dos filhos. A mensagem transmitida é clara: o casal chegou ao fim, mas os pais são uma presença permanente.Por fim, os adultos devem refletir sobre como as suas escolhas e comportamentos, perante a gestão dos conflitos interparentais, funcionam como um modelo para os filhos resolverem conflitos nos seus relacionamentos presentes e futuros. O verdadeiro poder que os pais podem transmitir aos filhos advém do exemplo que dão sobre a gestão equilibrada de pensamentos, emoções e comportamentos e da capacidade para negociar as diferenças, lidar com os fatores de stress e superar problemas ou dificuldades. Importa, então, que a criança ou o adolescente compreendam que os acontecimentos adversos podem ser difíceis, mas não têm de determinar o rumo de toda a sua vida.A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990