Negociações tendem a entrar em uma fase prolongada de revisões e disputas sobre tarifas e regras de comércio do USMCA. Governo Trump busca obter novas concessões sem reabrir formalmente o tratado Silhueta do presidente americano Donald Trump — Foto: Al Drago / Bloomberg RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 05/06/2026 - 13:02 Adiamento na Renovação do USMCA Gera Incerteza Comercial na América do Norte EUA, México e Canadá perderão o prazo para renovar o acordo comercial USMCA, abrindo caminho para negociações prolongadas sobre tarifas e regras comerciais. O governo Trump busca concessões sem reabrir o tratado formalmente, enquanto as negociações bilaterais ocorrem paralelamente. A incerteza pode afetar investimentos, com possíveis revisões anuais mantendo o acordo vigente até 2036. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Os Estados Unidos, o México e o Canadá devem deixar passar o prazo de 1º de julho para renovar seu acordo comercial, abrindo a possibilidade de meses ou até anos de negociações sobre regras e tarifas para a indústria automobilística e outros setores, segundo fontes ouvidas pela agência Bloomberg. O acordo, assinado pelo presidente Donald Trump durante seu primeiro mandato, prevê um prazo no próximo mês para sua renovação por mais 16 anos. Se os três países não concordarem em prorrogá-lo, o tratado permanecerá em vigor pelo menos até 2036 — a menos que um deles decida abandoná-lo completamente — e passará a ser submetido a revisões anuais sucessivas. Autoridades próximas ao processo afirmam que esse é agora o cenário mais provável. Ao optar por não renovar formalmente o acordo, o governo Trump desencadeará novas negociações e um período indefinido de incerteza sobre o futuro do tratado, disseram as fontes, que pediram anonimato por se tratar de discussões privadas. Enquanto isso, tendo como pano de fundo a revisão do acordo, os EUA iniciaram negociações bilaterais separadas com Canadá e México para tratar de atritos comerciais. Algumas dessas questões têm apenas relação indireta com o tratado, conhecido como USMCA (Acordo Estados Unidos-México-Canadá). Acordos paralelos poderão ser firmados para resolver esses impasses sem alterar o texto principal do tratado. A relevância econômica do USMCA é enorme para os três países. Antes de ser renegociado e rebatizado por Trump, o acordo era conhecido como Nafta. Juntos, os três países movimentam quase US$ 2 trilhões por ano em comércio bilateral, e os produtos que cumprem as regras do USMCA têm sido amplamente poupados da onda de tarifas impostas por Trump, incluindo as novas taxas anunciadas nesta semana. Canadá e México estão entre os maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos e são os principais compradores de produtos americanos. Ainda assim, ambos foram atingidos por novas tarifas sobre itens como automóveis e aço, o que tensionou as relações e estimulou boicotes. O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, já afirmou que Washington não fará uma simples renovação automática do acordo. Estados Unidos e México já agendaram a terceira rodada de negociações para meados de julho, enquanto as conversas com o Canadá têm ocorrido de forma menos formal. Dominic LeBlanc, ministro canadense responsável pelo comércio com os EUA, reuniu-se nesta semana com Greer em Washington e sugeriu que o dia 1º de julho não deve ser visto como uma data decisiva. “Precisamos ter cuidado para não criar um precipício que, na prática, não existe”, afirmou. O escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) recusou-se a comentar e remeteu às declarações recentes de Greer, que disse à emissora France 24 que, em 1º de julho, “não acredito que vamos simplesmente renovar o acordo, mas entraremos em negociações separadas”. Um dos objetivos de Trump é trazer mais empregos da indústria automobilística e de outros setores manufatureiros para os Estados Unidos, e ele vê as tarifas e as regras comerciais como instrumentos para alcançar essa meta. A Casa Branca defende uma nova exigência segundo a qual veículos novos precisariam ter pelo menos 50% de conteúdo produzido nos EUA para se qualificarem à isenção tarifária — condição que Trump tentou, sem sucesso, incluir na renegociação do tratado durante seu primeiro mandato. Velhos pontos de atrito também voltaram à tona, como o sistema canadense de gestão do setor de laticínios, que restringe importações. Programas de defesa também são fonte de tensão, incluindo a dúvida sobre se o Canadá cumprirá a encomenda de caças F-35. Não está claro até que ponto a Casa Branca pode alterar as condições do acordo sem modificar formalmente o texto legal do USMCA, o que poderia exigir uma votação politicamente difícil no Congresso americano. Segundo algumas fontes, Greer sinalizou que o governo deseja promover mudanças sem recorrer ao Congresso, pressionando Canadá e México a aceitarem concessões que seriam formalizadas por meio de cartas paralelas ou protocolos adicionais. A principal negociadora comercial do Canadá, Janice Charette, descreveu essas iniciativas como uma espécie de “peça bilateral de Lego que se encaixa” ao acordo original. Integrantes do governo do primeiro-ministro canadense Mark Carney pressionam por um entendimento que reduza as pesadas tarifas impostas por Trump sobre aço, alumínio, automóveis e madeira. Carney irritou Trump ao discursar em Davos e acusar as grandes potências mundiais de adotarem práticas coercitivas, mas recentemente passou a adotar uma postura mais conciliadora. Em um evento em Nova York, defendeu publicamente uma cooperação mais estreita com os EUA na exploração de minerais críticos, como potássio e urânio. Trump também demonstra interesse em uma versão modificada do oleoduto Keystone XL, que ligaria o Canadá aos Estados Unidos. Nesta semana, o governo Carney abandonou um plano que obrigaria grandes plataformas de streaming, como Netflix e Disney, a investir 15% de sua receita anual obtida no Canadá em conteúdo local. A decisão foi elogiada pelo embaixador americano em Ottawa. Mesmo assim, autoridades canadenses se preparam para um cenário em que as negociações tarifárias se arrastem por anos, possivelmente até o fim do mandato de Trump, em 2029. À medida que as conversas se intensificam, elas acreditam que o presidente poderá continuar adotando a estratégia usada desde janeiro de 2025: impor novas tarifas ao Canadá ou criticar seu governo nas redes sociais. Trump poderia até ameaçar retirar os Estados Unidos do acordo comercial para aumentar a pressão e arrancar concessões. Após o encontro com Greer, LeBlanc adotou um tom otimista, mas alertou para “turbulências” pela frente. As negociações com o México têm se concentrado fortemente no setor automotivo. Assim como o Canadá, a economia mexicana vem sofrendo com a incerteza relacionada às tarifas. A segunda maior economia da América Latina acumula agora 19 meses consecutivos de queda no investimento total. Procurado para comentar o assunto, o governo mexicano remeteu a uma carta divulgada pelo ministro da Economia, Marcelo Ebrard, na qual ele afirma que a prioridade para o USMCA deve ser a preservação do acordo como um pacto trilateral. Permanece em aberto a questão de saber se Trump aceitará renovar o tratado em algum momento ou se sua administração optará por mantê-lo permanentemente sob revisão, o que dificultaria a atração de investimentos para seus parceiros menores. Caso a Casa Branca não se comprometa com a renovação, Canadá e México podem relutar em fazer concessões. Trump pode, a qualquer momento, notificar com seis meses de antecedência sua intenção de abandonar totalmente o acordo — possibilidade que ele já cogitou em conversas privadas, embora não tenha feito ameaças públicas recentes nesse sentido. Por enquanto, as negociações com México e Canadá parecem caminhar para acordos paralelos com cada país, em linha com o modelo que Trump vem adotando com outras nações: oferecer alívio tarifário em troca de concessões específicas.