A captação de recursos nos fundos de investimento sustentável (IS) e com critérios ESG pisou no freio no Brasil. Após registrar uma entrada líquida de R$ 12,9 bilhões em 2025 - o que garantiu uma média mensal superior a R$ 1 bilhão -, o segmento viu o fluxo minguar para R$ 751,87 milhões nos quatro primeiros meses deste ano, derrubando a média mensal para R$ 188 milhões, segundo levantamento da Anbima. O recuo no ritmo de novos aportes evidencia um teto para esse modelo, que apesar de acumular alta de 701% desde 2022 e atingir um patrimônio de R$ 59,8 bilhões em abril, ainda representa meros 0,55% de toda a indústria de fundos do país. “Houve uma diminuição no ritmo das emissões de títulos de renda fixa neste ano, após um período de crescimento acentuado dos fundos IS e que integram ESG. Mas a expectativa ao longo do ano, devido a algumas agendas em andamento, é que ganhem tração”, afirma Carlos Takahashi, diretor da Anbima e coordenador da Rede Anbima de Sustentabilidade. Apesar de críticas à agenda ESG em países como os Estados Unidos, ele avalia que agenda sustentável ganhou força no Brasil com eventos como a COP30 e o PRI in Person, além de iniciativas que aproximam capital público e privado, como o Eco Invest e o Fundo Clima, com recursos do Tesouro e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para projetos sustentáveis, e emissões de CRIs, CRAs e debêntures de infraestrutura com critérios ESG. Fundos IS e relacionados ESG de renda fixa somam R$ 41 bilhões, quase 70% do patrimônio total. Takahashi ressalta que novas regulações devem impactar o mercado, como a do mercado de carbono e a que estabelece padrões internacionais para companhias abertas divulgarem informações financeiras relacionadas a sustentabilidade e riscos climáticos. A adesão é voluntária, mas a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) decidiu adotar o modelo "pratique ou explique", com transparência. Henri Rysman de Lockerente, gestor e responsável pela área de crédito privado e especialista em ESG do BNP Paribas Asset Management Brasil, destaca medida da Superintendência de Seguros Privados (Susep), de 2022, com requisitos de sustentabilidade para seguradoras e resseguradores. Agora, lembra, há avanço entre fundos de pensão, regimes próprios de previdência e entidades de previdência complementar. Outro marco, avalia, é a Resolução Previc 23, com diretrizes relacionadas a governança, gestão de riscos e divulgação de informações das carteiras, incluindo critérios ESG e dupla materialidade. O mercado ainda aguarda portarias com detalhes técnicos para implementação das regras. “É o que realmente vai fazer esse mercado crescer muito mais”, diz ele. A gestora, primeira do Brasil a lançar um fundo IS, tem 14 produtos do tipo ou que integram critérios ESG -investidores institucionais são quase 90% da base. Nos últimos 12 meses, a casa captou R$ 3 bilhões nessas estratégias. Agora, prepara um fundo de previdência com foco em crédito privado sustentável voltado ao varejo. Para Rysman, há potencial de entrada de pessoas físicas nesses produtos. De acordo com o gestor, episódios adversos de crédito e governança corporativa reforçaram a conscientização dos investidores sobre a importância do ESG na análise de investimentos. “Foi justamente devido a essas avaliações que conseguimos barrar alguns emissores e evitar impactos nos fundos”, afirma ele. Criada em 2024, a Régia Capital tem R$ 16 bilhões sob gestão, quase 80% na família de fundos Equilíbrio IS, de crédito privado high grade, e prepara uma nova etapa de expansão, com ampliação da distribuição por mais plataformas e family offices, segundo o diretor comerical, Guilherme Bragança. Outro destaque da casa é a gestão de FIDCs de microcrédito voltados a projetos de energia renovável, principalmente solar. A gestora lançou um fundo IS de debêntures incentivadas e avança em estratégias alternativas como o FIP de minerais críticos - importantes para a transição energética por sua aplicação em baterias e data centers -, em parceria com a Ore Investments, que está com oferta em curso. A Régia busca captar R$ 400 milhões e já conta com mais de R$ 300 milhões comprometidos para que BNDES e Vale ingressem como cotistas-âncora. Hoje, os fundos da Régia reúnem investidores de varejo, institucionais e estrangeiros. Segundo Bragança, há consenso entre investidores internacionais de que sul global concentra as oportunidades de soluções ligadas a transição energética, clima e natureza mais escaláveis. “O Brasil é claramente o principal cavalo na região”, conclui.
Captação de fundos verdes desacelera, mas mercado segue otimista
Novas regulamentações podem ampliar adesão a investimentos ligados sustentabilidade







