O Brasil registrou 42.590 assassinatos em 2024, o equivalente a 20,1 casos por 100 mil habitantes – o menor patamar da série histórica iniciada em 2014. Os dados constam no Atlas da Violência 2026, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Apesar da melhora dos indicadores nacionais, o cenário no Nordeste segue preocupante. Entre 2019 e 2024, a taxa de homicídios cresceu 28% no Ceará, 25,9% no Maranhão e 20,5% no Piauí. Além disso, 17 dos 20 municípios mais violentos do País, entre aqueles com mais de 100 mil habitantes, estão na região. Na entrevista a seguir, concedida à repórter Fabíola Mendonça, o coordenador do estudo, Daniel Cerqueira, explica as razões desse fenômeno e analisa os possíveis impactos da decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o CV como organizações terroristas.
Carta Capital: O que explica o recrudescimento da violência no Nordeste?Daniel Cerqueira: Um fator relevante é a transição demográfica. Há uma progressiva redução da proporção de jovens na base da pirâmide etária, mas esse processo não ocorre de forma uniforme no território nacional. No Sul e no Sudeste, observa-se maior velocidade de envelhecimento populacional, enquanto, no Norte e no Nordeste, ele ocorre bem mais devagar. Onde há menos jovens, a tendência é haver uma diminuição dos índices de violência. Um segundo fator tem a ver com o amadurecimento das políticas públicas no campo da segurança. Com mais expertise nessa área, os estados do Sudeste não se limitam a colocar polícia na rua: desenvolvem ações orientadas por resultados, levando em conta o que funcionou em outros países e o que a ciência está dizendo. No Nordeste, esse amadurecimento começou bem depois. O caso mais emblemático foi o de Pernambuco, em 2007, quando o então governador Eduardo Campos lançou o Pacto pela Vida, inspirado em uma política bem-sucedida adotada na Colômbia. A Paraíba também mantém, desde 2011, um programa muito interessante, que reduziu significativamente os índices de criminalidade. Outros estados não seguiram esse exemplo. É o caso da Bahia, onde o uso exacerbado da violência policial potencializa o problema.










