A pizza do Caçador entende perfeitamente a sua função: ela não quer ser assunto. Ela quer permitir que o assunto seja outro Encontro de papais noéis em almoço o Caçador — Foto: Gabriel de Paiva RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 04/06/2026 - 06:23 Pizzaria Caçador: O Coração Social da Tijuca com Simples Sabor O artigo celebra a pizzaria Caçador, na Tijuca, destacando seu papel como ponto de encontro social mais do que pela excelência gastronômica. Conhecida como "a melhor pizza ruim do Rio", a pizza do Caçador é simples e despretensiosa, servindo como pano de fundo para conversas e encontros. O texto ressalta a autenticidade e consistência do lugar, que, mais do que um restaurante, é uma extensão da comunidade local. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Passei um fim de semana em São Paulo. Voltei pensando na Tijuca. Foi na capital paulista, entre bares excelentes, restaurantes corretíssimos e algumas das pizzarias mais celebradas do país, lugares onde se discute farinha, fermentação, hidratação, temperatura do forno e a origem dos ingredientes, que me lembrei de uma máxima que repito sempre que surge a discussão sobre ketchup na redonda: o Caçador, choperia cravada há quase 40 anos na Praça Afonso Pena, serve há anos a melhor pizza ruim da cidade. Não escrevo isso como crítica ou provocação. É elogio. Parte da percepção de que talvez a Tijuca seja a contracultura gastronômica perfeita de São Paulo. No Caçador, a massa não passou dias fermentando. O molho não tem uma história emocionante para contar. O queijo não vem com certificado de origem nem com um garçom disposto a explicar sua árvore genealógica. A pizza do Caçador entende perfeitamente a sua função: crocante, fininha, ingredientes simples e, cortada à francesa, cai bem até com chope. Ela não existe para ser fotografada. Ela não quer ser assunto. Ela quer permitir que o assunto seja outro. Como quase tudo que servem por ali. O filé, o chope e até a banana split não são os melhores da cidade. Mas nada decepciona. Nada tenta ser o que não é. Tudo funciona. Foi justamente essa consistência que me fez passar tantas noites ali quando eu morava na Tijuca. Na época em que minha filha nasceu, o Caçador acabou se transformando numa espécie de extensão da minha sala de estar, com a praça funcionando como uma televisão muito mais interessante do que qualquer outra disponível em casa. Era ali que eu via as senhoras voltando da hidroginástica comentando a vida umas das outras. Era ali que recebia opiniões não solicitadas sobre a criação da minha filha. E era ali também que descobria que meu cachorro tinha sido visto passeando pela praça com outras pessoas. O homem era o passeador. A mulher, amiga. Mas isso pouco importava. A notícia já circulava, à moda tijucana. Porque a Praça Afonso Pena é uma pequena república independente dentro do bairro. E o Caçador, numa de suas esquinas, funciona como o coreto central. É ali que as notícias chegam, as histórias circulam e os encontros acontecem. As datas comemorativas são levadas a sério no Caçador: tudo ganha decoração ostensiva e temporária. Neste ano, imagino, os balões de coração vermelhos do Dia dos Namorados devem dividir espaço com bandeirinhas verde-amarelas da Copa. A convivência entre o romantismo de papel laminado e o nacionalismo futebolístico de plástico colorido já me desperta uma curiosidade quase acadêmica. Há estudantes de arte que atravessam continentes para visitar exposições menos interessantes. Todos os anos, perto do Natal, o restaurante recebe para um almoço especial os Papais Noéis da cidade. Vestidos a caráter. Homens que passam dezembro inteiro em shoppings sustentando uma das mais improváveis fantasias coletivas da humanidade e acabam reunidos numa tarde da Tijuca para comer, beber e conversar. Não conheço estrela Michelin capaz de produzir uma imagem tão simpática. Foi por isso que voltei de São Paulo pensando no Caçador. Passei três dias cercado de lugares extraordinários e me peguei lembrando de um restaurante que nunca teve a menor pretensão de ser um deles. Entre o boteco da esquina e as tabernas europeias: Fui à Espanha e reconheci o Rio no balcão No fim das contas, restaurantes são feitos de comida, mas vivem das mesas que se repetem. Dos amigos que voltam. Das crianças que crescem. Dos cachorros que viram assunto de praça. Dos Papais Noéis que aparecem para almoçar uma vez por ano. A pizza, o chope e o resto vêm depois. Um segredo para os amigos paulistanos? Não é o ketchup. Por aqui, quase ninguém volta a um restaurante por causa da qualidade da massa. As pessoas voltam porque gostam de quem se tornaram ali dentro.
A melhor pizza ruim do Rio
A pizza do Caçador entende perfeitamente a sua função: ela não quer ser assunto. Ela quer permitir que o assunto seja outro






