A inteligência artificial tornou-se omnipresente nas rotinas quotidianas, a responder a perguntas, a gerar imagens, a filtrar emails. Mas o verdadeiro custo ambiental desta tecnologia vai muito além das emissões de carbono que dominam o debate público.É esta a conclusão central de um novo relatório da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH, na sigla em inglês), intitulado Custo Ambiental do Uso de Energia da IA, que lança um alerta sobre a pegada hídrica e territorial da infra-estrutura digital global — e que inova ao demonstrar que estas três dimensões se movem frequentemente em direcções opostas, tornando o retrato ambiental da IA mais complexo e preocupante do que aquele que prevalecia até agora.“O que mais nos surpreendeu foi a frequência com que as escolhas que parecem mais ecológicas do ponto de vista do carbono acabam por ser piores para a água ou para o solo”, afirma Miriam Aczel, autora principal do estudo.“Se continuarmos a avaliar a sustentabilidade da IA apenas pelo carbono, podemos pensar que as energias renováveis tornam a infra-estrutura de IA limpa, mas isso é resolver um problema enquanto se criam outros, frequentemente em locais que não o pediram.”Enome consumo invisívelOs números projectados para 2030 são de uma escala enorme. A procura de electricidade dos centros de dados deverá atingir os 945 TWh, quase três vezes o consumo combinado do Paquistão, Bangladesh e Nigéria, nota o documento.Em paralelo, a pegada hídrica deverá duplicar, dos actuais 4,5 biliões de litros anuais para 9,3 biliões de litros — água suficiente para satisfazer as necessidades domésticas de todos os 1,3 mil milhões de pessoas que habitam na África Subsariana. A ocupação territorial ultrapassará os 14.500 quilómetros quadrados, uma área equivalente a mais do dobro da região metropolitana de Jacarta.Mas estes impactos não se distribuem uniformemente pelo planeta. Ao contrário das emissões de gases com efeito de estufa, cujo efeito se dilui à escala global, a extracção de água e a ocupação do solo são sentidas de forma aguda pelas comunidades vizinhas das infra-estruturas.O paradoxo do “verde”Investigações anteriores já apontavam os riscos do carbono e, mais recentemente, da água, e esta análise traz como grande novidade a integração sistemática do uso do solo, mapeada nos 20 maiores centros de dados a nível global. Uma das contribuições do relatório é a cartografia dos trade-offs (compromissos) ocultos entre as três pegadas.A substituição do carvão por bioenergia, por exemplo, pode reduzir a pegada de carbono da electricidade em cerca de 70%, mas aumenta o consumo de água em mais de 30 vezes e a exigência de terreno em 100 vezes. Países com matrizes eléctricas dominadas por energia hidroeléctrica ou bioenergia, por seu turno, apresentam emissões de carbono muito baixas, mas um consumo de água e ocupação de solo que pode chegar ao quádruplo da média global.“Baixo carbono” não significa, portanto, automaticamente “baixo impacto ambiental”. A transição energética pode ser uma solução, mas pode também estar a deslocar o peso ambiental para regiões já sob stress, muitas vezes sem que os cidadãos dessas regiões tirem qualquer benefício da tecnologia que alimentam.Do Uruguai ao MéxicoOs exemplos concretos recolhidos pelos investigadores tornam visível aquilo que os dados agregados tendem a ocultar. Em Querétaro, no México, por exemplo, é possível observar a expansão da infra-estrutura de computação a esgotar reservas de água locais em pleno contexto de secas prolongadas.Em Montevideu, no Uruguai, os planos para a instalação de um centro de dados da Google coincidiram com a severa seca de 2023, que esgotou as reservas de água potável da cidade e deixou a água da torneira com níveis de salinidade que a tornaram imprópria para consumo humano. Na Irlanda, por seu turno, os centros de dados consumiram 21% de toda a electricidade do país em 2023.“Se mapearmos onde os centros de dados estão a ser construídos em comparação com onde o stress hídrico é pior, tendemos a ver as mesmas regiões em alguns casos”, alerta Mir Matin, gestor de programa da UNU-INWEH e co-autor do relatório. “E as comunidades que vivem perto destes locais não são necessariamente as que utilizam a IA aí executada. Essa assimetria é a questão. Sem corrigir isso, estaremos apenas a repetir padrões antigos, onde alguns lugares suportam os custos e outros captam os benefícios”, avisa.O dia-a-dia consome mais do que o treinoO relatório desfaz também um dos enquadramentos mais enraizados no debate público: a ideia de que o grande gasto energético da IA se concentra no treino de modelos complexos como o GPT-4. A investigação anterior focava-se precisamente nessa fase, com uma enorme utilização de recursos, mas com balizas temporais. O novo estudo demonstra que esse enquadramento está desactualizado: entre 80% e 90% do consumo total ocorre na fase de inferência, ou seja, no processamento contínuo dos pedidos diários dos utilizadores.Só o ChatGPT, por exemplo, responde a cerca de 2,5 mil milhões de pedidos por dia. E o tipo de tarefa pedida faz toda a diferença: gerar uma imagem consome cerca de 1450 vezes mais energia do que classificar um texto, e um único vídeo curto gerado por IA pode consumir a mesma electricidade que classificar 200 mil emails como spam. O vídeo torna-se, assim, a nova fronteira de consumo extremo de recursos a vigiar.A eficiência tecnológica, frequentemente apresentada como a saída para este dilema, pode até agravar o problema. “Muitas pessoas pensam que a pegada ambiental da IA diminui à medida que a tecnologia melhora”, reconhece Kaveh Madani, director da UNU-INWEH. “Porém, é precipitado: inteligência artificial e energia mais eficientes e acessíveis significam mais consumo de IA, tornando a pegada global muito maior do que aquilo que poupamos através de ganhos de eficiência.” É o chamado paradoxo de Jevons, ou efeito de ricochete: a eficiência estimula a utilização, e a utilização anula a eficiência.Uma questão de governaçãoO relatório não propõe, contudo, travar a IA. Kaveh Madani enquadra o estudo como “um apelo para a usar de forma responsável e abordar os seus impactos não intencionais proactivamente, de modo a torná-la sustentável e equitativa”, defendendo que existe “uma janela estreita para garantir que a espinha dorsal da revolução tecnológica da nossa era se desenvolva dentro dos limites planetários”.A dimensão geopolítica, nota o relatório, é igualmente central. Hoje, 90% de toda a capacidade de processamento de IA está concentrada em apenas dois países, os EUA e a China, enquanto mais de 150 países não têm infra-estrutura própria, mas suportam os custos da extracção mineral e do lixo electrónico, projectado em 2,5 milhões de toneladas anuais até 2030 — o equivalente a deitar fora 250 Torres Eiffel por ano.Para Tshilidzi Marwala, reitor da Universidade das Nações Unidas, a conclusão é inequívoca: “O sistema global que constrói a inteligência artificial também deve governá-la de forma sustentável e justa. A IA pode certamente promover a prosperidade e o bem-estar humano. Se o fará de forma equitativa, é agora uma questão de governação, não técnica.”