Quando o primeiro-ministro e o ministro da Defesa de Israel alertaram, na segunda-feira, que a força aérea em breve bombardearia os subúrbios de Beirute, isso não foi apenas uma ameaça de intensificar a guerra de baixa intensidade que já dura três meses contra o Hezbollah, a milícia apoiada pelo Irã que domina o Líbano. Foi também uma admissão de que a estratégia de Israel nesse conflito estava ficando aquém do esperado. E quando Israel recuou dessa ameaça poucas horas depois, a decisão evidenciou o quanto o país havia sido encurralado — preso entre a pressão doméstica para atacar duramente o Hezbollah e a pressão americana para limitar suas ações militares no Líbano. A estratégia israelense era ocupar território libanês como uma zona de proteção e empurrar o Hezbollah para além do alcance dos mísseis antitanque com os quais o grupo há muito tempo atormentava dezenas de milhares de civis que vivem no norte de Israel. Mas Israel aparentemente não estava preparado para o uso generalizado, pelo Hezbollah, de drones explosivos de visão em primeira pessoa (FPV), controlados por cabos de fibra óptica que podem se desenrolar por quilômetros e não são vulneráveis à interferência eletrônica. Esses drones não mataram soldados israelenses nem de longe na mesma proporção em que Israel matou combatentes do Hezbollah e civis libaneses durante sua ofensiva. Ainda assim, eles vêm caçando continuamente soldados e comandantes israelenses, tanto no Líbano quanto em Israel, com ataques frequentemente letais documentados em vídeos impactantes que o Hezbollah tem publicado nas redes sociais. Apenas na segunda-feira, segundo os militares israelenses, dois soldados morreram e dez ficaram feridos em ataques desse tipo. Assim, um confronto que, em março, fazia os líderes israelenses parecerem quase eufóricos — enviando seus poderosos tanques e tropas de infantaria para esmagar um Hezbollah enfraquecido, vulnerável e aparentemente sem direção — transformou-se em algo diferente. Agora é uma espécie de impasse em que o Hezbollah de repente parece mais capaz do que quando a guerra começou, enquanto os soldados das Forças de Israel podem parecer surpreendentemente indefesos. — Havia uma estratégia, havia — disse Orna Mizrahi, ex-funcionária de segurança nacional de Israel e responsável pelo programa sobre o Líbano no Instituto de Estudos de Segurança Nacional, em Tel Aviv. — Mas os drones causaram certa confusão, porque foram uma surpresa. As Forças de Defesa de Israel não achavam que seria uma arma tão perigosa. Em Israel, viam isso como um brinquedo. Os drones são apenas um dos desafios enfrentados por Israel no Líbano. Outro, talvez igualmente problemático, é a dificuldade de atender às crescentes demandas políticas internas para agir de forma suficientemente agressiva a fim de eliminar a ameaça que o Hezbollah representa para os civis israelenses, sem entrar em conflito com o presidente Donald Trump. Para o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que disputará a reeleição em poucos meses, fazer campanha com base em seu histórico de segurança nacional pode ser complicado quando milhares de moradores do norte de Israel — incluindo muitos de seus apoiadores tradicionais — ainda estão correndo para abrigos ou ainda não retornaram para suas casas após a evacuação, afirmou Michael Koplow, analista do Israel Policy Forum, um grupo de defesa de orientação liberal. — Isso não é realmente uma estratégia — disse ele sobre a atual postura militar de Israel no Líbano. — É um imperativo político em busca de uma estratégia. Moradores vasculham os escombros após um ataque aéreo israelense em Tiro, no Líbano — Foto: Daniel Berehulak/The New York Times De fato, Israel iniciou esta fase da guerra contra o Hezbollah com promessas ousadas e absolutas de mudar a situação no Líbano “de uma vez por todas”, nas palavras de Netanyahu. Mas rapidamente abandonou essas ambições grandiosas, já que isso poderia exigir a conquista de todo o território libanês. O país reduziu ainda mais seus objetivos em abril, depois que Trump passou a buscar o fim da guerra com o Irã e, para facilitar essas negociações, pressionou Israel a limitar suas ações ofensivas contra o aliado iraniano no Líbano — incluindo a proibição prática de bombardear Beirute. Desde então, após estabelecer uma ampla zona de proteção e deslocar centenas de milhares de civis, os militares israelenses têm se concentrado principalmente em eliminar o que afirmam ser uma extensa infraestrutura militar do Hezbollah. Segundo analistas, simplesmente manter uma zona de proteção no Líbano apresenta inúmeros problemas. Lições de 1982 Assaf Orion, general israelense da reserva e atualmente pesquisador do Washington Institute for Near East Policy, afirmou que Israel parece estar esquecendo as duras lições aprendidas após a invasão do Líbano em 1982 (uma invasão que inspirou a criação do próprio Hezbollah). Na época, Israel declarou uma “zona de segurança” de cerca de 40 quilômetros ao norte da fronteira — aproximadamente o alcance dos foguetes Katyusha que militantes palestinos no Líbano disparavam contra Israel. O país não tentou despovoar essa área, como faz atualmente, preferindo aliar-se a cristãos libaneses para assumir o controle do sul do país e cercar Beirute. Israel prometera retirar-se do Líbano em 48 horas. Permaneceu por 18 anos. — Escolher permanecer ali de forma estática contradiz a maioria das lições que aprendemos entre 1982 e 2000 — disse Orion em entrevista. — Politicamente, porque fornece ao Hezbollah um pretexto de que ele precisa e revitaliza a ideia da resistência. Mas também operacionalmente. Quando você se torna estático, fica bastante claro que essas forças se transformarão em alvos. Não surpreende, portanto, que autoridades militares e governamentais israelenses venham pressionando para retomar uma campanha aérea contra redutos do Hezbollah em Beirute e em outras partes do Líbano. Esse desejo de ter mais liberdade de ação ajuda a explicar por que Israel queria separar a questão libanesa das negociações de paz entre Estados Unidos e Irã. — Você ouve israelenses dizendo que temos de lutar com uma das mãos amarradas nas costas, como aconteceu contra o Hamas por causa dos reféns — afirmou Shira Efron, analista israelense da RAND Corporation. — Que não podemos atacar o coração de Beirute porque os americanos nos limitam, mas que, se pudéssemos, o Hezbollah estaria sob muito mais pressão. Sarit Zehavi, presidente do Centro de Pesquisa e Educação Alma, focado na fronteira norte de Israel, afirmou que as restrições impostas pelos Estados Unidos acabam beneficiando o Hezbollah no longo prazo. Segundo ela, removê-las ajudaria não apenas Israel, mas também o governo libanês, que já deixou claro seu desejo de desarmar o Hezbollah, embora não tenha demonstrado capacidade para fazê-lo. — Se você só atua até a linha amarela e não atinge o coração pulsante do Hezbollah em Beirute, as rotas de contrabando e as instalações de fabricação de armas no Vale do Bekaa, os comandantes e líderes, o resultado é que você fica preso em um jogo de gato e rato — disse ela. — Você não encerra isso. E todos nós queremos encerrar isso. Uma visão oposta foi apresentada por Efron, que argumentou que um acordo entre Estados Unidos e Irã, incluindo um cessar-fogo verdadeiro e bilateral no Líbano, poderia ser preferível a uma situação em que, segundo ela, os soldados israelenses são “alvos fáceis” quando não estão “destruindo vilarejos”, enquanto o risco de “uma ocupação prolongada do sul do Líbano” parece aumentar a cada dia. — Se um acordo limitar as ações do Hezbollah e reduzir a presença israelense na zona de proteção, não a zero, mas talvez para algo próximo aos cinco pontos elevados que controlava antes da guerra, acho que isso faria um favor a Israel — disse ela. — E não tenho dúvida de que pessoas dentro das forças armadas esperam por isso, embora jamais admitam publicamente.