Com as forças israelitas concentradas na sua incursão mais profunda no interior do Líbano desde que se retiraram do país há 26 anos (depois de 18 anos de ocupação), ficou claro que nem o cessar-fogo virtual nem as primeiras conversações directas entre os dois países, mediadas pelos Estados Unidos, fazem qualquer diferença na estratégia de Benjamin Netanyahu contra o Hezbollah.Mas o mesmo não se pode dizer de Teerão, que terá, segundo a agência iraniana Tasnim, travado qualquer interacção com Washington enquanto não acabarem as operações de Israel no Líbano e em Gaza, onde o Irão patrocina o Hezbollah e o Hamas, respectivamente.De acordo com a agência de notícias associada aos Guardas da Revolução, a equipa negociadora iraniana está a retirar-se do diálogo estabelecido com os EUA, essencialmente através do mediador Paquistão, em protesto contra a escalada bélica no Líbano.Desde o início que uma das condições dos iranianos para chegar a um acordo com os norte-americanos tem sido que uma hipotética trégua seja sempre estendida ao Líbano (onde os ataques israelitas começaram a 2 de Março, depois de o Hezbollah ter atacado Israel em resposta aos ataques ao Irão).Mas, desde que começaram a surgir rumores e declarações de que um possível acordo entre os Estados Unidos e o Irão estava próximo (conversações em que Israel tem sido mantido à margem), as forças israelitas têm intensificado os ataques ao Sul do Líbano e a outras zonas como o vale de Beqaa, considerados redutos do grupo pró-iraniano, e ocupado faixas cada vez mais extensas do país.A Tasnim acrescenta que o Irão e aquilo a que chama a sua “frente de resistência” (movimentos armados que, além do Hezbollah e do Hamas, inclui também os houthis do Iémen e as milícias xiitas do Iraque) irão bloquear totalmente o estreito de Ormuz e “activar” outras frentes neste conflito, como o estreito de Bab el-Mandeb, que fica do outro lado da Península Arábica, junto à passagem para o Mar Vermelho.Apesar deste discurso de linha dura dos militares iranianos, noutra agência de notícias da República Islâmica, a IRNA, o Presidente do país, Masoud Pezeshkian, é citado como tendo dito à primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, numa chamada telefónica esta segunda-feira, que o Irão está pronto a facilitar o tráfego marítimo e a garantir a segurança da navegação no estreito de Ormuz.“O Irão está totalmente preparado para facilitar o trânsito marítimo. O principal problema decorre das restrições e obstáculos impostos pelos EUA à navegação e ao comércio iraniano”, disse Pezeshkian, aparentemente sem fazer qualquer referência aos chamados grupos pró-iranianos e ao conflito no Líbano, e deixando mais uma vez evidente a divergência interna entre o poder militar e os chamados moderados que preferem a via diplomática para resolver o conflito.“Faremos tudo para garantir que os navios japoneses possam passar sem dificuldades e com maior facilidade”, terá dito o Presidente iraniano à governante japonesa.A United Kingdom Maritime Trade Operations (UKMTO), organização de referência de monitorização do tráfego marítimo comercial, que funciona sob a alçada da Marinha britânica, revelou esta segunda-feira que recebeu um relatório indicando que um navio de carga foi atingido por um projéctil de origem desconhecida no Golfo Pérsico, a cerca de 40 milhas náuticas a sudeste de Umm Qasr, no Iraque.Periferia de Beirute sob ameaçaEsta segunda-feira, depois de se saber que as Forças de Defesa de Israel (FDI, na sigla em inglês) têm ordem para bombardear os subúrbios a sul de Beirute (algo que já não acontece desde o cessar-fogo anunciado a 16 de Abril), milhares de pessoas puseram-se em fuga da zona de Dahiyeh, habitada maioritariamente pela comunidade xiita libanesa e onde o Hezbollah tem amplo apoio.As estradas que saem da zona onde fica, entre outros, o bairro de Haret Hreik, o mesmo onde o anterior líder do movimento pró-iraniano, Hassan Nasrallah, foi morto em Setembro de 2024, ficaram congestionadas pelos carros em fuga de libaneses que voltam a não ter muitas opções de abrigo.O cenário repete-se a Sul onde as forças israelitas continuavam a emitir ordens de retirada à população de diversas localidades, ao mesmo tempo que o Hezbollah intensificava os ataques ao Norte de Israel.