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A Inteligência Artificial (IA) está mudando o panorama das eleições a nível global. Na Índia, líderes já mortos e que ainda são queridos pela população voltaram a pedir votos, recriados por IA para endossar candidatos vivos, como se abençoassem do além uma escolha de urna. Nos Estados Unidos, a voz do então presidente Joe Biden foi clonada e disparada em milhares de telefonemas automáticos que pediam aos eleitores para não comparecer às urnas.Em setembro de 2023, na Eslováquia, um áudio fabricado simulava uma conversa entre o líder oposicionista Michal Šimečka, do Progressive Slovakia, e uma jornalista do diário Denník N às vésperas das eleições parlamentares. Dias depois, no Reino Unido, na abertura da convenção do Partido Trabalhista, outro áudio falso atribuiu ao então líder Keir Starmer xingamentos a funcionários do partido. Na Indonésia, o passado militar de um candidato, marcado por acusações graves de violação de direitos humanos, foi reescrito até virar uma imagem amável e simpática. E no Brasil, em pleno ano eleitoral, a IA não ficará de fora.Quer receber notícias do PÚBLICO Brasil pelo WhatsApp? Clique aqui.Por esse motivo, a inteligência artificial esteve no centro do painel Uso da Inteligência Artificial Generativa nas Eleições, realizado nesta terça-feira, 2 de Junho, no XIV Fórum de Lisboa, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL). Sob mediação do advogado e professor Guilherme Mucelin, a mesa reuniu pesquisadores do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) e os representantes de duas das maiores empresas de IA do mundo: Maria Eduarda Cintra, gerente de Government Affairs e Políticas Públicas do Google Brasil, e Bruno Lewicki, chefe de Políticas Públicas da OpenAI.O consenso comum foi o de que o Brasil chega a esse cenário em posição incomum, com uma das regulações mais avançadas do mundo, construída ao longo de anos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas que é preciso ter atenção a alguns pontos considerados importantes pelos painelistas.O "dividendo do mentiroso"No mapeamento conduzido pela Google e apresentado no Fórum, o que antes se resumia a textos gerados por máquina passou a envolver imagens e, sobretudo, a voz dos candidatos. Maria Eduarda Cintra chamou a atenção para o microdirecionamento, a prática de usar dados pessoais para moldar mensagens sob medida, muitas vezes distribuídas por aplicativos como o WhatsApp, dizendo ao eleitor exatamente aquilo que ele quer ouvir, e não necessariamente o que o candidato pensa. A "ressurreição" de líderes mortos na Índia, lembrada também pela professora Laís Bergstein, do IDP, foi apresentada como um dos exemplos mais perturbadores dessa virada técnica.O risco mais sutil, porém, tem nome próprio. É o que os especialistas chamam de "dividendo do mentiroso", e Maria Eduarda fez questão de descrevê-lo. É o efeito que permite a um político flagrado por provas verídicas alegar que o material é, na verdade, conteúdo fabricado por inteligência artificial. Em vez de combater o falso, a tecnologia passa a oferecer um álibi para negar o verdadeiro.














