Um grupo de deputados federais ligados à base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva viaja nesta semana para uma série de encontros em Washington, dias após a visita do pré-candidato Flávio Bolsonaro ao presidente Donald Trump na Casa Branca. Na sequência da incursão do senador do PL, o governo americano anunciou a classificação de duas facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, o que elevou preocupações com o risco de interferência externa em assuntos brasileiros. A missão oficial da Câmara tem a participação prevista dos deputados federais Jandira Feghali (RJ), líder do PC do B; Pedro Uczai (SC), líder do PT; Pedro Campos (PSB-PE), vice-líder do governo; e André Janones (MG), líder do Rede Sustentabilidade. Segundo eles, o objetivo é defender as instituições democráticas brasileiras e repudiar "qualquer tentativa de ingerência" dos EUA, de ordem militar, política ou econômica. A viagem já estava prevista antes da visita de Flávio, mas a avaliação é que o episódio aumentou sua importância. A agenda deve incluir reuniões com congressistas, representantes de organismos internacionais — como a Organização dos Estados Americanos (OEA) —, diplomatas, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil. Segundo um auxiliar da delegação, alguns detalhes do roteiro estão sendo mantidos sob reserva, para evitar que eventuais pressões contrárias prejudiquem conversas já marcadas. A expectativa é que os encontros só sejam divulgados depois, assim como os custos da viagem — pelas regras da Câmara, deputados têm até 15 dias após o retorno para fazer a prestação de contas. Um dos organizadores da viagem é o Washington Brazil Office (WBO), um "think tank" baseado nos EUA que se define como independente e trabalha para incentivar a cooperação entre os dois países. Segundo comunicado da organização, os "parlamentares progressistas" terão uma agenda que busca fortalecer o diálogo político e institucional sobre temas estratégicos, "evitando que a relação entre os dois países seja pautada apenas por tensões e medidas unilaterais". Uma das expectativas é reduzir a influência de interlocutores bolsonaristas nas visões dos EUA a respeito da situação brasileira, "ampliando a compreensão" sobre o Brasil em espaços de influência política em Washington. Na prática, essas abordagens funcionam como um contraponto a mensagens compartilhadas pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, principal voz da direita brasileira no território americano. Morando no país desde o ano passado, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro usou o acesso ao entorno de Trump para buscar influenciar medidas como o tarifaço e a nova classificação dos grupos criminosos. Outra intenção da comitiva é "reafirmar a confiança nas instituições democráticas brasileiras e na solidez do sistema eleitoral do país", num momento em que as eleições começam a chamar a atenção internacional. Além disso, os encontros devem tratar de desinformação e de outros temas da agenda bilateral. Os deputados justificam, de acordo com a nota da organização, que a viagem é "parte legítima da atuação democrática" deles como parlamentares, na defesa da soberania e do papel internacional do Brasil. "Nosso objetivo é apresentar a força das instituições brasileiras e reafirmar uma mensagem clara: o Brasil decide seu futuro com autonomia, respeito à democracia e sem qualquer tipo de ingerência externa", afirmou nas redes sociais a deputada Jandira Feghali, que é uma das participantes da viagem à capital americana. "Defender a soberania nacional é defender a vontade do povo brasileiro", completou ela, citando uma das bandeiras do presidente Lula (PT) para a campanha eleitoral. Ao criticar a decisão dos EUA que inclui grupos brasileiros na lista de terroristas, organizações como Pacto pela Democracia e Instituto Vladimir Herzog afirmaram que a medida abre precedente para intervenções americanas, inclusive na esfera eleitoral. Amanda Roberson, porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, negou na semana passada qualquer discussão sobre eventual ingerência do país e disse que "quem vai ser o próximo presidente do Brasil é decisão dos brasileiros".