[RESUMO] Tese de doutorado lançada agora em livro detalha a exclusão histórica de trabalhadoras domésticas na ficção brasileira. Apenas a partir dos anos 2010 essas personagens passaram a protagonistas de contos e romances, reflexo de um movimento em que filhas, sobrinhas e netas dessas profissionais na vida real viraram escritoras e buscaram contar as histórias de suas antepassadas.

"Dei o cano no serviço em plena segunda-feira. Puta que pariu! Sensação boa. O pau quebrando lá fora e eu, encantada. Só de pensar na cara da d. Celeste, que eu apelidei de Cepeste, dá bem pra imaginar por qual motivo, naquele olho cinzento enfeitado de ruga, fulminando a pia cheia de louça e a bagunça do fim de semana por arrumar, me arrepiei. Mulher folgada." ("Perifobia", de Lilia Guerra)

Na ficção, saber o que pensam e sentem trabalhadoras domésticas —terror de senhores e senhoras que têm a si próprios em alta conta— foi durante muito tempo uma impossibilidade imposta por patrões que habitam tanto romances quanto a realidade.

Em pouco mais de 150 anos, apenas 37 trabalhadoras domésticas registraram presença significativa em nossa produção literária, segundo tese de doutorado defendida em 2024 e recentemente convertida no livro digital e gratuito "Quirinas", de Mariana Filgueiras.