Gerando resumoFoto: Werther Santana/EstadãoPedro Parenteeconomista, empresário e ex-ministroPedro Parente é um colecionador de alcunhas importantes. Foi o “ministro do apagão” no governo Fernando Henrique Cardoso, responsável por liderar um plano de ação para lidar com a grave crise de racionamento de energia que assolou o país naquele período. Também já foi o presidente da “petroleira mais endividada do mundo”, como a Petrobras costumava ser chamada após os desdobramentos da Operação Lava Jato. Durante o Governo Michel Temer, foi escalado para colocar a estatal de volta nos trilhos e ajudou a implementar a política de paridade dos preços dos combustíveis. Hoje, “Pedro” - como pede, com simplicidade, para ser chamado -, é conselheiro de administração de empresas privadas e um incansável pensador sobre o futuro do Brasil.Ele esteve no Brasil Adiante, evento promovido pelo Estadão na última quarta-feira, 27, cuja proposta é traçar soluções práticas para os problemas já bem conhecidos do País, como a questão fiscal. Mesmo com o longo currículo na gestão pública, Pedro não se prende ao economês. Para ele, a solução passa por um problema de mentalidade e comunicação.“Bom, temos tantos problemas, mas o principal deles é o fato de não termos uma visão de futuro. A gente não tem um projeto de país que passe por vários mandatos. Nós não sabemos onde queremos chegar”, afirma, em entrevista concedida ao Estadão.PublicidadeMesmo quando existem medidas fiscais, diz ele, a comunicação delas é ineficiente. A conversa se tornou algo entre o governo e a Faria Lima, não entre o governo e a população. “A nossa realidade é que, hoje, as coisas que a gente precisa fazer são explicadas de uma maneira mais complicada, de uma maneira que os faria limers entendem, mas que precisa ser entendida pela população”, disse.Para ele, falta brio nos líderes políticos e sobra conformismo na sociedade, o que seria a receita da estagnação. “Nós podemos ter um país excepcional, muito melhor, mas estamos nos acostumando ao curtoprazismo, nos acostumando à mediocridade”, diz Parente.Pedro Parente participa do Brasil Adiante, evento promovido pelo Estadão para debater futuro do Brasil Foto: Felipe Rau/EstadãoQual é o principal problema do Brasil hoje e qual a solução para esse problema? Bom, temos tantos problemas, mas o principal deles é o fato de não termos uma visão de futuro. A gente não tem um projeto de País que passe por vários mandatos. Nós não sabemos onde queremos chegar.Há aquela velha frase: “não há ventos favoráveis para quem não sabe para onde vai”. Outro problema é a ideia equivocada de que os setores funcionam de forma isolada, como se saúde não tivesse nada com educação, ou infraestrutura nada tivesse a ver com negócios. Tudo equivocado.PublicidadePara mim, o principal problema que temos é essa falta de uma visão de país, do que nós queremos. Nós podemos ter um país excepcional, muito melhor, mas estamos nos acostumando ao curtoprazismo, nos acostumando à mediocridade.Hoje temos uma situação na economia em que o juro está acima de 10% há quatro anos, mas a inflação continua sendo constantemente revisada para cima. Na prática, como desatar esse nó?O Brasil está viciado em juros altos. Essa avenida aqui perto - o pessoal da Faria Lima - está viciada em juros altos. E aquele número que você mencionou, 10%, refere-se ao juro real, ou seja, acima da inflação.Nós somos campeões, ou vice-campeões, das maiores taxas reais de juros do mundo. Competimos, e eu não acho isso bom, com a Rússia.A primeira observação que eu faria é a seguinte: precisamos questionar se realmente necessitamos de uma taxa real de juros tão alta. Organismos internacionais afirmam que uma taxa real de 3% já seria bastante elevada. Cada ponto percentual adicional na taxa real de juros representa cerca de R$ 60 bilhões a mais na nossa dívida interna.PublicidadeEntão, acredito que a discussão começa por aí. É claro que tem uma questão de fundo que precisa ser resolvida. Temos um déficit fiscal que aumenta a cada semana.Basta observar as medidas populistas que o atual governo está adotando para tentar se reeleger. Mais uma vez, uma visão de curto prazo. Onde está o prazo que essas pessoas olham? Outubro. Não enxergam à frente. Não são estadistas.Qual a sua avaliação sobre a condução econômica do governo Lula? É uma política econômica completamente errática. Um presidente que jogou para um lado, jogou para o outro ao sabor daquilo que eram as indicações do seu marqueteiro. Não houve consistência. Eu acredito que, se você tem consistência e se você demonstra que a sua prática corresponde ao seu discurso, a população vai entender a necessidade de medidas duras.Em entrevistas recentes, o Sr. comentou que pode ser que o País precise piorar muito antes de melhorar, e que talvez uma crise seja necessária para abrir espaço para mudanças. Estamos indo nessa direção?Eu não sei se o Brasil tem que piorar antes de começar a melhorar. O que eu sei é que se não sabe onde quer chegar, não sabe se vai estar piorando, se está melhorando e não saberá se está no rumo certo.PublicidadeTemos eleições se aproximando em meio a muitos escândalos. A questão do Banco Master expôs grandes fragilidades na República. Como voltar a falar de economia, de proposta, em meio a esses vícios que foram identificados?Eu acho que tudo é um sintoma realmente de um país com vários problemas, com várias patologias. Você começa com um problema que é: quem governa de fato? É o presidente ou é o centrão? E se você não sabe quem governa de fato, quem você responsabiliza? Eu entendo que você precisa começar a falar, ser propositivo, ser proativo e ter uma linguagem que os eleitores entendam. A nossa realidade é que, hoje, as coisas que a gente precisa fazer são explicadas de uma maneira mais complicada, de uma maneira que os faria limers entendem, mas que precisa ser entendida pela população.E não é difícil fazer isso, basta ter convicção, consistência e coerência. Falando com a população, explicando porque você precisa fazer certas coisas, você pode começar a melhorar imediatamente desde que você tenha uma visão de onde você quer chegar.O que é urgente para os próximos dois anos? O que o próximo governo precisaria encarar como prioridade?Já falei e vou repetir: precisa encarar com realidade a construção do país que a gente pode ter, que a gente merece ter e que é muito melhor do que esse que temos hoje.Publicidade