Quem define as regras do mercado digital não é o governo, nem o mercado em si. São as plataformas. O poder digital exercido por um punhado de empresas de tecnologia já determina quais negócios aparecem para o consumidor, quais trabalhadores são contratados por aplicativos e quais informações circulam na esfera pública. Para a maioria das empresas brasileiras, essa dependência ainda não tem nome, mas já tem consequências.

Esse deslocamento de poder não aconteceu de uma hora para outra. Ele foi viabilizado pela combinação entre internet, dispositivos conectados, big data e algoritmos cada vez mais sofisticados, que ampliaram a capacidade das plataformas de capturar atenção, extrair dados comportamentais e definir as condições de acesso a mercados inteiros.

Uma mudança de algoritmo no Google pode reduzir o tráfego de um e-commerce em dias. Uma atualização de política no Instagram pode inviabilizar anos de construção de audiência. Quando uma empresa privada exerce função equivalente à de um regulador, surgem perguntas sobre legitimidade, recurso e accountability que o ambiente regulatório brasileiro ainda não responde.

É esse deslocamento que Eduardo Felipe Matias analisa em “A humanidade e o poder digital: impactos da IA sobre nosso futuro”, livro publicado pela Editora Senac São Paulo. Jurista com passagens pelas universidades de Berkeley e Stanford, atuação no ecossistema de startups e duas vezes premiado com o Jabuti, Matias reúne na obra 456 páginas de pesquisa sobre como plataformas e inteligência artificial reorganizam a economia, o trabalho e a democracia. Nos dois livros anteriores, havia investigado a globalização e a sustentabilidade. Agora, vira a atenção para o que chama de força definidora do século XXI: a inovação tecnológica.