Não faltaram avisos para os riscos. Ainda assim, 18 fundos de servidores aplicaram nos engodos de Vorcaro Fachada do Banco Master em São Paulo — Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/19-11-2025 Há ao menos 17 casos semelhantes ao do fundo de aposentadoria dos funcionários do estado do Rio de Janeiro, o Rioprevidência, que enterrou bilhões em papéis duvidosos do Banco Master, depois transformados em pó. Mais que um escândalo de corrupção, o episódio expõe a gestão financeira temerária dos administradores desses fundos, resultado de deficiência na vigilância do sistema de Previdência dos servidores públicos. A última estimativa é que apenas o Rioprevidência aplicou R$ 3,69 bilhões em títulos ou fundos do Master, numa cronologia cujo passo, como revelou reportagem do GLOBO, era sincronizado com os encontros entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ex-governador Cláudio Castro. Entre os fundos que investiram no Master, destacam-se também R$ 400 milhões dos servidores do Amapá, R$ 50 milhões dos funcionários do Amazonas, além de vários fundos municipais — da prefeitura de Maceió (AL), com R$ 97 milhões, à de Campo Grande (MS), com R$ 1,2 milhão. Dos 2.130 Regimes Próprios de Previdência (RPPS) do funcionalismo público, 18 foram atraídos pelo engodo do Master. Os demais agiram de acordo com a informação corrente no mercado financeiro: a situação do banco inspirava cautela. Não faltaram sinais de que as aplicações do Rioprevidência e dos demais fundos não obedeciam a padrões mínimos de gestão de riscos. O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) alertou sobre a elevada concentração de investimentos do fundo no Master e pediu que não houvesse novas aplicações. Não adiantou. O sistema de controles e vigilância não agiu com o rigor necessário para evitar prejuízos — que, pela legislação, acabarão cobertos com dinheiro do contribuinte. Por que ninguém agiu a tempo? Era preciso mais que um aviso. O sistema de controle é hoje formado por um departamento do Ministério da Previdência, conselhos e comitês deliberativo, fiscal e de investimentos dos fundos. Mediante alertas como o do TCE-RJ, eles deveriam ter o poder de impedir operações, acionar auditorias e investigações para a instauração, se cabível, até de processo penal. A experiência mostra que a gestão de recursos nas proximidades do mundo político requer salvaguardas especiais. Não é a primeira vez que fundos previdenciários do setor público envolvem dinheiro de seus cotistas em negócios temerários. A Operação Lava-Jato desvendou como agentes políticos mobilizaram fundos de pensão de várias estatais para investir em projetos de retorno incerto, por mero interesse político de favorecer grupos empresariais aliados. O enredo era o mesmo do encenado agora por Vorcaro. Para evitar que casos assim se repitam, é fundamental apertar a regulação desses fundos e sua governança. Investigações e punições precisam ocorrer em velocidade compatível com os negócios do sistema financeiro. Quando está em jogo a poupança de aposentados e pensionistas, seja do setor público, seja do privado, a vigilância precisa ser maior, as sanções precisam ser rigorosas — e funcionar.