O livro estava quase pronto. Marta o desmontou folha por folha, corrigiu as falhas com retalhos de papel japonês, costurou todas as páginas de novo e colou a lombada.

O pai, Raphael, foi o primeiro a perceber que a filha tinha habilidade manual e a imaginava dentista, como ele. Marta optou por outro caminho, depois que a amiga Marina a apresentou aos avós, o casal Guita e José Mindlin, criadores de uma das mais importantes coleções particulares de livros e manuscritos raros do Brasil.

Fez cursos de restauração e mergulhou na atividade. Grávida, afastou-se por mais de duas décadas. Retomou nos últimos anos. O livro quase pronto era um exemplar de "Rumo à Estação Finlândia", do ensaísta americano Edmund Wilson, que ela planejava dar ao filho Daniel.

Foi um dos primeiros presentes que ganhou do marido, Antonio, no começo do namoro —um namoro que engatou depois que ele recitou um poema de Manuel Bandeira ("Ver-te e amar-te, Marta / Obra foi de um só momento"). Na infância, Daniel achava que o próprio pai fizera os versos.

Miúda, Marta gostava de alimentar as pessoas. Certa vez soube que o filho de uma colega do marido estava internado com leucemia e quase não conseguia comer durante o tratamento. Fez um bolo e levou ao hospital. Virou rotina.