A travagem registada na economia portuguesa no primeiro trimestre deste ano ocorreu apesar de, nesse período, se ter registado uma aceleração muito significativa do investimento, naquele que pode ser um dos primeiros sinais do efeito da fase final de execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). O problema é que, com esse aumento do investimento, veio também um acréscimo significativo das importações.O Instituto Nacional de Estatística (INE) confirmou esta sexta-feira os dados da variação do PIB durante o primeiro trimestre de 2026 que tinha apresentado na sua primeira estimativa feita em final de Abril: a economia portuguesa registou um crescimento em cadeia (face ao trimestre imediatamente anterior) nulo, o que representa uma travagem significativa depois da taxa de crescimento positiva de 0,9% que se tinha registado no último trimestre do ano passado.Em termos homólogos (em comparação com o mesmo trimestre do ano anterior), a variação do PIB foi beneficiada pelo efeito base de a economia se ter contraído no início de 2025 e verificou-se uma subida da taxa de variação homóloga do PIB de 1,9% no último trimestre do ano passado para 2,3% no primeiro trimestre deste ano.Mas para além de confirmar os dados de crescimento da economia, o INE deu a conhecer esta sexta-feira pela primeira vez como é que evoluíram as diversas componentes do PIB, o que permite obter uma imagem dos principais factores por trás da travagem registada. E a ideia fundamental que se pode tirar é a de que, apesar de a procura interna (consumo e investimento) terem acelerado, isso aconteceu em simultâneo com uma redução significativa da procura externa líquida (exportações menos importações).De facto, revelam os números da autoridade estatística nacional, a passagem de um crescimento de 0,9% em cadeia no quarto trimestre de 2025 para uma variação nula do PIB no primeiro trimestre de 2026 é explicada pela combinação de um contributo mais positivo da procura interna (que passou de -0,1 pontos percentuais para 1,7 pontos) com um contributo bastante mais negativo da procura externa líquida (de um ponto percentual para -1,6 pontos).Do lado da procura interna, o principal destaque positivo veio do investimento. Depois de um crescimento em cadeia de 1,2% no quarto trimestre de 2025, este indicador acelerou para uma variação de 1,9%. A taxa de variação homóloga do investimento passou de 5,2% para 9,2%, que é o valor mais alto dos últimos cinco anos.Esta aceleração do investimento está concentrada sobretudo na compra de equipamentos de transporte (com um crescimento em cadeia de 6,1%) e noutras máquinas e equipamentos (crescimento de 11,3%).Este contributo do investimento para a economia, contudo, pode trazer consigo um problema. Uma parte do efeito positivo no PIB é anulada pelo facto de, normalmente, uma parte significativa do investimento (especialmente quando estão em causa a compra de equipamentos de transporte e outras máquinas) corresponder à aquisição de produtos importados. Como as importações contribuem negativamente para o valor do PIB, o impacto positivo do investimento fica mitigado.Parece ter sido isso que aconteceu no primeiro trimestre deste ano. Ao mesmo tempo que o investimento acelerou, as importações fizeram o mesmo, crescendo bem mais que as exportações e levando a que o contributo da procura externa líquida para o PIB passasse de positivo no final de 2025 para negativo no início de 2026.As importações, que tinham caído 2,5% em cadeia no quarto trimestre do ano passado, aumentaram agora 5,4%, a taxa de variação mais alta desde o quarto trimestre de 2021. As exportações também aceleraram, mas de forma mais moderada: a taxa de variação em cadeia passou de -0,5% para 2,1%.Do lado do consumo privado, que tem sido o principal motor da economia portuguesa nos últimos trimestres, registou-se um abrandamento no primeiro trimestre que já era esperado. No quarto trimestre do ano passado, a variação em cadeia deste indicador tinha sido de 0,9% e agora foi apenas de 0,1%. Esta desaceleração explica-se pelo facto de se estar progressivamente a diluir o impacto positivo das medidas extraordinárias aplicadas pelo Governo em Setembro, nomeadamente o pagamento de um valor suplementar aos pensionistas e a diminuição da retenção na fonte do IRS.Em termos homólogos, contudo, continua a ser evidente que é o consumo privado, com uma taxa de variação de 3% no primeiro trimestre deste ano, que está a contribuir de forma mais significativa para que o crescimento global da economia se mantenha em torno dos 2%.
PIB com variação nula: investimento acelera, mas faz disparar as importações
Com o PRR a chegar ao fim, o investimento acelerou no primeiro trimestre deste ano. Em simultâneo, contudo, o aumento das importações contribuiu de forma decisiva para o abrandamento da economia.











