Grandes consumidoras de energia elétrica e investidoras em autoprodução para cortar custos, as operadoras de telecomunicações começam a enxergar o setor elétrico como um novo nicho de negócios. Com uma base pulverizada de clientes em todo o país e a experiência de quem viveu a abertura do mercado de telecom nos anos 1990, as teles miram as transformações globais do segmento de energia. Tendências como digitalização, descarbonização, descentralização e o empoderamento do consumidor - além do avanço do mercado livre e dos grandes data centers - moldam as novas diretrizes que conectam esses dois mundos. Em 2022, o governo federal publicou a portaria 50, pela qual abriu o mercado livre de energia elétrica para todas as empresas ligadas à média e alta tensão a partir de janeiro de 2024. A medida fez com que empresas com conta de R$ 20 mil mensais pudessem escolher livremente seu fornecedor. O movimento pode ganhar ímpeto. A eventual abertura total do mercado livre de energia elétrica a partir de novembro de 2028 tem mobilizado empresas de energia e de telecom, que discutem a possibilidade de estabelecerem parcerias e potenciais negócios. A Lei 15.269/25, sancionada em novembro de 2025, estipula a abertura do mercado livre de energia elétrica em três anos a partir de sua publicação, a depender de algumas condições, como criação do Supridor de Última Instância e a comunicação sobre a intenção com os consumidores. A abertura abrangeria o mercado residencial e cerca de 90 milhões de pontos de luz espalhados pelo Brasil. “Estamos estudando o mercado de energia de forma ampla. Há muitas variáveis ainda em relação à abertura total, que poderia chegar a 90 milhões de pontos. Por isso estamos estudando”, diz Hamilton Silva, diretor de infraestrutura da Claro Brasil. “Estamos analisando energia e também outros segmentos, porque podemos ter produtos que possam integrar outros nichos de mercado”, destaca o executivo. No ano passado, a TIM e a Axia Energia firmaram acordo pelo qual clientes corporativos da operadora de telecom no segmento de pequenas e médias empresas podem comprar energia geradora no mercado livre. Segundo a operadora, observa-se “uma evolução gradual e consistente no interesse dos clientes de pequena e médias empresas pela oferta de energia no mercado livre, especialmente pela combinação de economia potencial, previsibilidade de custos e acesso a fontes renováveis. A operadora, inclusive, já evoluiu a ação para o segmento de empresas de maior porte.” Em relação à abertura total do mercado em 2028, a TIM informa que avalia a ampliação de forma positiva. “Nesse contexto, a parceria com a Axia está alinhada à estratégia da companhia de diversificar seu portfólio e atuar como hub de benefícios e facilitadora do acesso a novas soluções para sua base de clientes. O acordo prevê o desenvolvimento de diferentes frentes de atuação ao longo dos próximos anos, incluindo a evolução da oferta de energia e possíveis integrações com soluções de conectividade e IoT. As empresas seguem avaliando continuamente novas oportunidades, em linha com o avanço regulatório e a maturidade do mercado.” A Vivo, em 2023, firmou parceria com a geradora Auren para criar a GUD Energia, comercializadora de soluções customizadas em energia renovável com atuação em todo o Brasil. “A Vivo acredita que a abertura do mercado livre de energia elétrica cria oportunidades e vantagens tanto para consumidores quanto para as empresas que atuam no segmento. A presença da Vivo neste mercado, por meio da GUD, faz parte da estratégia de negócios da operadora, que visa diversificar sua atuação, posicionando-se como uma empresa de tecnologia com negócios em outras áreas, entre elas a de energia”, diz a Vivo em nota. A abertura total do mercado elétrico permitará que consumidores residenciais de todo o Brasil escolham livremente seu fornecedor, abrindo as portas para a migração potencial de 90 milhões de lares. De olho nessa base gigantesca e pulverizada de clientes, empresas de energia têm firmado parcerias com operadoras de telecomunicações para incluir a eletricidade em combos de serviços. No entanto, o varejo de energia envolve complexidades específicas que desafiam o modelo tradicional das teles, como as fortes oscilações de preços no mercado livre e as disparidades tarifárias entre as diferentes regiões brasileiras. A movimentação não é aleatória. O futuro do mercado de energia está aberto em todo o mundo. Big techs, bancos e empresas de energia estão observando as oportunidades. O mercado livre de energia tem crescido com força nos últimos anos e movimentado bilhões de reais. Esse ambiente de contratação livre registrou, em 2025, a entrada de mais de 21,7 mil novos consumidores, totalizando aproximadamente 85 mil participantes, responsáveis por cerca de 43% de toda a eletricidade consumida no país atualmente.