A expansão da cobertura móvel no Brasil ganhou novo impulso com o leilão da faixa de 700 MHz, realizado em 4 de maio pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e pelo Ministério das Comunicações. Com arrecadação de R$ 23 milhões em outorgas, o certame foi desenhado menos como instrumento fiscal e mais como política pública, segundo o governo. As vencedoras - Brisanet, Unifique, Amazônia Serviços Digitais (hoje Amazônia 5G) e iez! telecom - terão de cumprir compromissos de investimento estimados em R$ 2 bilhões para levar conectividade a cidades e rodovias hoje desassistidas, muitas classificadas como “zonas de silêncio”. A perspectiva é de que, até 2030, a licitação viabilize a implantação de sinal 4G ou superior em 864 localidades e 6,5 mil quilômetros de rodovias federais. A BR-101, que deve ter alcance integral já em 2026, está entre os primeiros trechos. Ao todo, aproximadamente 680 mil pessoas de 16 Estados serão beneficiadas. Segundo a Anatel, essa frequência complementa o espectro de 3,5 GHz, adquirido no leilão do 5G, ao oferecer maior abrangência de sinal e melhor desempenho em ambientes internos. Enquanto a mais alta é voltada à capacidade e velocidade, a de 700 MHz é capaz de percorrer longas distâncias e atravessar obstáculos físicos com mais facilidade, reduzindo a necessidade de antenas para cobrir grandes áreas. A iez! telecom vê a aquisição como um passo para ampliar a escala da conectividade em cidades do interior e regiões historicamente menos atendidas pelos grandes players. Com um lance de R$ 4,4 milhões, a empresa ficou responsável pela cobertura de cidades de menor porte na região Sudeste e rodovias como BR-116 e BR-040. “Mais do que uma disputa competitiva tradicional, trata-se da construção de um modelo sustentável de avanço digital regional, voltado à inclusão tecnológica e ao aumento da oferta de infraestrutura de telecomunicações em localidades com menor densidade de investimento”, afirma Diogo Câmara, diretor-executivo de varejo e empresarial da iez! telecom. A companhia projeta ampliar sua atuação em cerca de 250 cidades por ano, com aportes progressivos. O plano inclui a implantação integrada das faixas de 700 MHz e 5G, com perspectiva de melhor retorno sobre o capital investido e abertura de novas frentes de receita onde há menor oferta de serviços de alta capacidade. Já a Brisanet avalia a incorporação do ativo como uma estratégia para consolidar a cobertura móvel e fortalecer a infraestrutura digital. A nova frequência complementa o portfólio já formado pelas bandas 2,3 GHz e 3,5 GHz, adquiridas em 2021, e amplia o alcance do sinal com ganhos de eficiência operacional. A companhia arrematou, por R$ 6,3 milhões, o lote A2, que inclui 215 localidades e 830,5 km de rodovias no Nordeste e, por R$ 1,8 milhão, o lote A3 que abrange 65 localidades e 1.785,5 km de estradas no Centro-Oeste - as operações nessa região devem começar em julho. Na Unifique e na Amazônia 5G - controlada pela Unifique Telecomunicações desde abril de 2026 -, a aquisição está alinhada ao plano de crescimento no segmento móvel e de fortalecimento da oferta de serviços convergentes. Segundo Fabiano Busnardo, CEO das duas empresas, a banda combina maior alcance de sinal e melhor cobertura indoor, favorecendo a ampliação da rede em áreas rurais, localidades menos densas e trechos rodoviários. “Contribui também para o desenvolvimento socioeconômico das localidades atendidas”, afirma Segundo ele, não haverá impacto relevante na curva de capex, pois o planejamento já previa a implantação integrada das tecnologias 4G e 5G. Parte das obrigações, como a cobertura de localidades e rodovias, coincide com áreas já contempladas no leilão do 5G ou próximas a regiões onde a companhia vem ampliando a infraestrutura, o que tende a gerar ganhos de eficiência operacional. Os compromissos regulatórios, previstos entre 2026 e 2030, incluem a cobertura de cerca de 20% das localidades por ano e o avanço gradual da conectividade em trechos rodoviários prioritários. A Unifique ficou com o lote A4, que compreende 94 localidades e 30 trechos de rodovias na região Sul. Seu lance foi de R$ 3,4 milhões. A Amazônia 5G arrematou o lote que abrange 30 localidades e 10 trechos de rodovias em São Paulo e 335 localidades e 242 trechos de rodovias na região Norte. Na avaliação de Eduardo Tude, presidente da consultoria Teleco, a realização deste leilão corrige uma lacuna do certame do 5G. Segundo ele, não seria viável estruturar redes móveis apenas com espectro de 3,5 GHz, já que frequências mais altas exigem maior densidade de antenas para garantir cobertura equivalente e estão mais associadas ao uso do 5G - tecnologia ainda menos disseminada entre os usuários, que seguem majoritariamente no 4G. Ao viabilizar a expansão fora dos grandes centros, a faixa de 700 MHz reforça o papel das operadoras regionais na interiorização do serviço e na redução das áreas ainda sem atendimento adequado. Um movimento que pode ampliar a competição e acelerar a inclusão digital nos próximos anos. Às vésperas do leilão da faixa de 700 MHz, marcado inicialmente para 30 de abril, entidades do setor levaram a disputa à Justiça. A TelComp questionou a exigência de que participantes da primeira rodada já detivessem espectro na faixa de 3,5 GHz, apontando restrição à concorrência. Já a Acel, que representa as grandes teles, criticou a priorização das operadoras regionais na etapa inicial e levantou possíveis ilegalidades. Uma decisão da 10ª Vara Cível Federal de São Paulo chegou a suspender o certame, mas a liminar foi revertida no mesmo dia, permitindo a realização em 4 de maio, ainda sob incertezas. Após o leilão, os questionamentos continuaram. A Acel acionou o Judiciário para tentar suspender a adjudicação e a homologação dos resultados. O pedido, no entanto, foi negado.