Inicialmente previsto para este ano, o leilão da frequência de 6 gigahertz (GHz) - estratégica para o desenvolvimento da nova geração de conectividade móvel (6G) - foi adiado para 2028. A expectativa é que o novo prazo seja suficiente para o amadurecimento do ecossistema de equipamentos e aplicações. Enquanto a padronização da infraestrutura - que terá a inteligência artificial como pilar - avança, a indústria estuda soluções comercialmente viáveis para consolidar a nova rede. Segundo a Anatel, o adiamento considerou informações que apontam a oferta incipiente de equipamentos de rede e de terminais de usuários, o que constitui um fator limitante à “viabilidade de um modelo que equilibre obrigações de investimento, expansão da cobertura e interesse público”. Para Hugo Baeta, diretor-geral da Nokia, a decisão foi apropriada e permite alinhar o Brasil ao ritmo global de evolução do 6G. “É importante entender que o 6G será uma transformação mais estrutural de rede”, diz. Existia um consenso de que estava muito cedo para fazer o leilão, complementa Rodrigo Dienstmann, presidente da Ericsson. “Poderia gerar incertezas e prejudicar o efeito do leilão, de promover investimentos no setor.” Brasil terá que investir na expansão da malha de fibra óptica, destaca Paulo Sérgio Rufino — Foto: Divulgação Além da telefonia móvel, a faixa 6 GHz estará disponível para os serviços de radiação restrita, como os sistemas Wi-Fi, cuja adoção, segundo a Anatel, ao contrário das expectativas iniciais, “tem sido limitada, tanto no mercado consumidor quanto na infraestrutura corporativa, possivelmente devido a fatores como o custo dos equipamentos, a ausência de aplicações massivas que exigem canais com maior largura de banda, além da disponibilidade de soluções ainda predominantemente voltadas às faixas tradicionais de 2,4 e 5 GHz”. A expectativa é de que a primeira versão da rede 6G esteja disponível em 2030. Para tanto, serão necessárias especificações técnicas estáveis para garantir a interoperabilidade entre as soluções de diferentes fornecedores e regiões. A Nokia firmou parcerias estratégicas em nível global com a indústria, operadoras, universidades e organismos de padronização com esse objetivo. Uma delas é com a Nvidia e envolve investimento de US$ 1 bilhão para acelerar o desenvolvimento de redes móveis nativamente baseadas em IA. Um dos desafios dos projetos, porém, é a complexidade operacional do ecossistema 6G. De acordo com Baeta, ao contrário das gerações anteriores de conectividade móvel, o 6G prevê vários “slices” dinâmicos (fatiamento da infraestrutura de rede física em várias redes virtuais independentes, cada uma das quais customizada com velocidade, segurança e latência próprias para atender necessidades específicas) que precisarão de gerenciamento autônomo. Decisão [de adiar] permite alinhar o Brasil ao ritmo global de evolução do 6G, diz H. Baeta — Foto: Divulgação Redes autônomas (configuração na qual a IA substitui as pessoas nas tarefas de monitorar, corrigir falhas, ajustar o tráfego e provisionar novos recursos em tempo real) é um dos focos de atuação da Ericsson junto às operadoras de telefonia móvel no contexto do 6G. A empresa, que destina 20% de sua receita em P&D, patenteou uma tecnologia que permite o autogerenciamento da infraestrutura e abre caminho para a redução de custos operacionais e para a criação de serviços inovadores. Além disso, concentra esforços nos equipamentos que permitirão a criação de “slices” de rede. Para além do aumento da velocidade de transmissão de dados, o 6G será uma plataforma de criação de múltiplos serviços diferenciados que mudarão a dinâmica do tráfego e impactarão profundamente a infraestrutura de conectividade. O emprego do conceito de gêmeos digitais em larga escala, que poderão replicar redes inteiras, instalações industriais e ambientes hospitalares para a simulação de tomada de decisão proativa, e a habilitação da infraestrutura de rede no sensoriamento e comunicação integrados (Isac, na sigla em inglês) para mapeamento do ambiente em tempo real, são exemplos de aplicação citados. Outra aplicação é na medicina, ressalta Paulo Sérgio Henrique Rufino, cientista na área de 6G e computação quântica do CTIF Global Capsule. Ele integra o time da organização francesa que, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), pesquisa cirurgia robótica remota e educação médica orientada por IA. Mas o carro-chefe das aplicações comerciais tende a ser a comunicação holográfica (que projeta imagens tridimensionais de pessoas ou objetos em tempo real). “Hoje, não é possível porque exige muita banda e uma latência muito baixa para capturar e transmitir imagens na rede”, diz. A habilitação dos serviços inovadores suportados pela nova geração de conectividade móvel exigirá uma reengenharia da arquitetura de rede. Segundo Rufino, o Brasil terá que investir na expansão da malha de fibra óptica.
Indústria apoia leilão do 6G em 2028
Decisão da Anatel de adiar a disputa garante tempo para o mercado amadurecer e focar em soluções baseadas em IA














