Os rios, que são as estradas naturais da Amazônia, também estão se transformando em corredores digitais do século XXI, em uma engenharia inédita que está instalando quilômetros de cabos de fibra óptica submersa em uma região marcada pela floresta, cheias, correntezas e distâncias continentais, conectando comunidades onde antes a internet era inexistente ou chegava de forma lenta ou precária. Orçado em R$ 1,3 bilhão, o programa Norte Conectado busca levar conectividade para 70 localidades em seis Estados amazônicos por meio de nove infovias, num total de 13,2 mil quilômetros de cabeamento no leito de grandes rios - entre eles, Amazonas, Tapajós, Madeira e Tocantins. Embora tenha sido lançado em 2020, a expansão do Norte Conectado ganhou força principalmente após o leilão do 5G de 2021, que destinou recursos e obrigações para conectividade na Amazônia. Na COP30, o programa ganhou visibilidade como uma das vitrines de inovação sustentável em telecomunicações, sendo considerado um dos legados da conferência, realizada em Belém em 2025. A Entidade Administradora da Faixa (EAF), responsável pela implementação de seis das nove infovias, entregou 2,4 mil km de cabos das infovias 02, 03 e 04. Para a próxima fase, estão previstas as infovias 05, 06 e 08, totalizando mais 3.179 km de extensão contínua até 2028. “Esse é o maior projeto de lançamento de cabo subfluvial do mundo. O cabo vem da China, mas a tecnologia é completamente nacional e executada por brasileiros”, diz Gina Marques, CEO da EAF. A operação é complexa, pois os cabos são instalados diretamente no fundo dos rios, muitas vezes com correntezas fortes, baixa visibilidade e grandes variações entre períodos de seca e cheia. O programa demanda a contratação de mergulhadores profissionais para executar etapas como o lançamento, posicionamento e ancoragem dos cabos de fibra óptica, que podem envolver até 50 pessoas. As infovias concluídas no Amapá, Pará, Amazonas e Roraima já permitiram expandir a conexão à internet em escolas, hospitais e universidades, e aos poucos a infraestrutura começa a chegar em municípios ribeirinhos, aldeias indígenas e em áreas remotas. “O impacto social é muito grande. A conectividade abre uma janela para o mundo, e traz melhorias em educação, saúde e acesso a mercados para produtores amazônicos”, afirma Marques. A região Norte tem menor proporções de acesso à internet por fibra óptica - cerca de 71% dos domicílios conectados utilizam cabo ou fibra, em comparação à média nacional de 73% - e, ao mesmo tempo, apresenta dependência de conexões móveis: 15% dos domicílios conectados acessam a internet principalmente por rede móvel, percentual acima da média nacional, de 11%, segundo a pesquisa TIC Domicílios 2025. Nas regiões mais remotas e menos urbanizadas, é maior a dependência de satélites, mercado dominado pela Starlink, do grupo SpaceX. Os compromissos assumidos no leilão do 5G foram, na visão de especialistas, um marco da evolução da conectividade na região. Apesar dos avanços, o desafio ainda é significativo. Cerca de 20% da população do Norte segue sem acesso à internet, o que representa aproximadamente 400 municípios ainda desconectados ou com cobertura insuficiente. É o maior projeto de cabo subfluvial do mundo. O cabo vem da China, mas a tecnologia é nacional” “A ampliação da conectividade permanece como uma agenda estratégica para os próximos anos”, diz Leonardo Donato, sócio-líder para telecomunicações na América Latina da consultoria EY. Nesse cenário, ele destaca a combinação entre a atuação das grandes operadoras nacionais, que já possuem presença consolidada na região e o fortalecimento de um ecossistema local de empreendedores e provedores regionais, que vêm investindo e ampliando sua participação na cadeia de telecomunicações da Amazônia. Segundo Edson Holanda, conselheiro da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o edital do 5G e os projetos que ampliam a conectividade na Amazônia trazem soberania para a região. “É o Estado viabilizando uma infraestrutura que o setor privado não faria sozinho, devido aos altos custos. Os projetos vão habilitar o desenvolvimento de uma economia digital, com benefício enorme para a população”, diz Holanda, que preside o Gaispi, grupo que coordena e supervisiona várias obrigações ligadas à implantação do 5G na faixa de 3,5 GHz. O grupo discute com a EAF a promoção de um programa de capacitação profissional, com cursos técnicos em telecomunicações voltados para a formação de mão de obra para atuar no setor, em cargos como instaladores e operadores de rede, cibersegurança e manutenção das infovias. A realização da COP30 em Belém trouxe maior dinamismo para o mercado de telecom e contribuiu para acelerar projetos que já estavam previstos, na visão de Miércio Alcântara Neto, diretor-adjunto do Instituto de Tecnologia da Universidade Federal do Pará (UFPA). Só a capital paraense ganhou 40 novos pontos de antenas 4G e 5G em decorrência do evento, além de Wi-Fi público gratuito, links de internet de 100 Gbps e da modernização do data center estadual. Grandes operadoras reforçaram o sinal e também expandiram conexões 5G em outras capitais amazônicas e o 4G no interior. “Houve um empurrãozinho da COP30. Os investimentos que estavam planejados foram executados mais rapidamente”, diz Neto.
Fibra óptica no leito dos rios amplia conexão na Amazônia
Projeto previsto no leilão do 5G leva sinal a áreas remotas; COP30 acelerou investimentos em telecom nas capitais













