Enquanto a gestão petista tenta destravar a obra, especialistas e organizações ambientais alertam para os impactos que o asfaltamento pode provocar em uma das regiões mais preservadas da floresta Estrada BR-319, no Amazonas. — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 25/05/2026 - 18:30 Governo Autoriza Empresa Investigada a Pavimentar BR-319, Gerando Polêmica Ambiental O governo federal autorizou a empresa Etam LTDA, investigada por corrupção, a pavimentar a BR-319, ligação crucial entre Manaus e Porto Velho. Apesar do apoio presidencial, a obra enfrenta resistência de ambientalistas devido aos riscos para a Amazônia. Quatro licitações foram abertas, e Etam, envolvida na Operação Ptolomeu, venceu uma delas, gerando polêmica e preocupações ambientais. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O impasse jurídico que há anos impede a retomada das obras da BR-319, estrada que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), ganhou um novo capítulo com o aval do Ministério dos Transportes para uma empresa alvo de investigação por corrupção. Quatro pregões foram abertos para a escolha das construtoras que farão a pavimentação do trecho do meio da via. Defendida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que visita o Amazonas a partir desta terça-feira, a reconstrução da rodovia enfrenta resistência de ambientalistas, que veem no asfaltamento uma ameaça a uma das áreas mais preservadas da Floresta Amazônica. Nessa segunda-feira, o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (Dnit) homologou a vitória da construtora Etam LTDA no edital referente ao trecho entre os quilômetros 469 a 590 da rodovia. O valor acordado foi de R$ 362 milhões, bem abaixo do orçamento previsto pelo órgão (R$ 430 milhões). Gladson Cameli é ex-governador do Acre — Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado A empresa foi um dos alvos da Polícia Federal (PF) na Operação Ptolomeu, que mirou a cúpula da gestão de Gladson Cameli (PP) à frente do Executivo do Acre. Em maio deste ano, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenou Cameli a 25 anos e nove meses de prisão pelos crimes de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraude à licitação. Os investigadores apuraram supostos desvios pela construtora no âmbito de obras de infraestrutura e manutenção de unidades de saúde e escolas. Em 2023, a Etam, que tem o pai do ex-governador como sócio-administrador, chegou a ter a “atividade de natureza econômica” suspensa por 90 dias pelo STJ como desdobramento das investigações. O GLOBO procurou Cameli e a Etam, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem. O Dnit, por sua vez, afirmou que "todos os procedimentos licitatórios são conduzidos com estrita observância à Lei de Licitações e Contratos Administrativos, aos princípios que regem a Administração Pública e orientações do Tribunal de Contas da União (TCU)". A autarquia também argumentou que os contratos são de "melhoramento" da estrada, não de pavimentação. "O Dnit esclarece que não possui atuação direta na elaboração ou no encaminhamento de propostas pelas empresas participantes de processos licitatórios. Tais procedimentos seguem normas e regulamentos próprios, garantindo isonomia e transparência", disse a autarquia. Avanço das obras Como revelou o GLOBO em abril, o governo Lula se baseia em um critério — antes vetado pelo próprio presidente — presente na lei que flexibilizou o licenciamento ambiental para tentar avançar com os trabalhos na BR-319, dispensando o rito do Ibama. Os pregões chegaram a ser paralisados após pedido da ONG Observatório do Clima (OC). No mesmo dia, entretanto, a presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, desembargadora Maria do Carmo Cardoso, suspendeu a liminar e autorizou a retomada dos editais. Os quatro editais do Dnit, publicados no dia 13 de abril, preveem a contratação de empresas para realizarem a pavimentação de 339,4 quilômetros no chamado “trecho do meio” da BR-319, onde a floresta está mais preservada. Em março, o Ministério dos Transportes estimava um investimento de R$ 678 milhões, mas os pregões anunciados no mês seguinte somam mais de R$ 1,3 bilhão. Há cerca de 20 anos, a obra da BR-319 é questionada na Justiça. De um lado, autoridades locais defendem a pavimentação da via, que tem mais de 850 quilômetros e é a única ligação terrestre de Manaus com o restante do país. Do outro, entidades ambientalistas pedem que seja realizado o licenciamento ambiental completo, a fim de mitigar impactos em uma região com grande biodiversidade. Em 2022, o governo federal, sob gestão de Jair Bolsonaro (PL), concedeu uma licença prévia (LP), que foi derrubada ano passado pela Justiça, após ação do Observatório do Clima. A LP é a primeira fase de licenciamento em vigor na época, que previa ainda a obtenção de Licença de Instalação (LI) e Licença de Operação (LO). Após a nova lei, o modelo trifásico deixa de ser obrigatório, a menos que haja grande impacto ambiental. Viagem de Lula Lula cumprirá agendas de governo na terça-feira e na quarta-feira desta semana em Manaus. A viagem também terá o objetivo de aparar arestas com aliados e tentar fechar os nomes do palanque no Amazonas para a eleição de outubro. O PT defende a escolha do ex-vice-presidente da Câmara dos Deputados Marcelo Ramos como candidato ao Senado. O líder do MDB na Casa, Eduardo Braga, que disputará um novo mandato, porém, resiste a essa indicação. O nome ao governo de Lula no Amazonas será o senador Omar Aziz (PSD). Em vídeo publicado em abril, o petista afirmou que não seria a hora de paralisar obras e definiu a rodovia como “sonhada e requisitada”. Disse ainda que vai “começar a reformar”. Ele aparece ao lado de Aziz e Braga, que são defensores da pavimentação da via.