Aluna diz ser alvo de perseguição e racismo; instituição afirma que ela se apresentava como dentista formada sem ter concluído o curso Guia Antiracista para Ondontologia — Foto: Reprodução A estudante de odontologia Ariane Moura Reis, aluna do último semestre da Universidade Veiga de Almeida (UVA), entrou na Justiça contra a instituição após ser alvo de um processo administrativo disciplinar que pode resultar em seu desligamento da universidade. A defesa acusa a UVA de conduzir o procedimento de forma sigilosa, sem garantir acesso integral aos autos e sem assegurar plenamente o direito de defesa da estudante. Ariane ganhou projeção nacional após lançar, ao lado de outros profissionais da área, um guia sobre antirracismo na odontologia. A publicação aborda práticas discriminatórias no ensino e no atendimento clínico, como menor aplicação de anestesia em pacientes negros e falhas no acolhimento de pessoas negras em ambientes de saúde. A estudante passou a participar de palestras e debates em universidades e espaços acadêmicos pelo país. Segundo o advogado Hédio Silva Jr., a situação teria se agravado depois que Ariane foi apresentada equivocadamente como “doutora” em um material de divulgação de um evento da UERJ. A defesa afirma que, após o episódio, a universidade instaurou um PAD e afastou cautelarmente a estudante. No mandado de segurança protocolado nesta terça-feira (27), os advogados sustentam que Ariane foi submetida a um processo conduzido “sob manifesta clandestinidade”, sem acesso integral aos documentos e sem possibilidade concreta de exercer o contraditório e a ampla defesa. A ação pede a suspensão imediata do PAD, a nulidade dos atos já praticados e a aplicação do Protocolo para Julgamento com Perspectiva Racial. E também alega que ela está prestes a concluir a graduação, corre risco de perder os últimos cinco anos de formação acadêmica, além de sofrer danos reputacionais e profissionais. “Ariane está sendo punida não por um fato concreto de gravidade, mas porque ousou produzir conhecimento antirracista, conquistar reconhecimento público e ocupar espaços historicamente negados à população negra”, afirmou Hédio Silva Jr. Já a versão da UVA vai na direção contrária. Em nota, a Universidade Veiga de Almeida afirmou que recebeu comunicação formal da Secretaria Municipal de Saúde do Rio relatando que a estudante, estagiária da rede municipal, vinha se apresentando em redes sociais como dentista formada e cirurgiã-dentista antes da conclusão da graduação e sem registro profissional. A UVA informou que instaurou o processo administrativo disciplinar com base em seu regimento interno e afirmou que Ariane teve direito à ampla defesa e ao contraditório durante toda a tramitação. A universidade acrescentou que a estudante ainda pode recorrer ao Conselho Superior Universitário para revisão da decisão, mas que, até o momento, nenhum recurso foi apresentado. A instituição reafirmou, por fim, seu compromisso “com a ética, com a formação responsável de profissionais da saúde e com o cumprimento das normas acadêmicas e legais que regem o exercício profissional”.