Sem o carisma e a vitalidade de Francisco, o antecessor, o papa Leão XIV finalmente saiu da sombra e deu sentido ao seu pontificado. Na segunda-feira 25, o norte-americano ­Robert Prevost lançou a encíclica Magnifica ­Humanitas, que trata da salvaguarda dos seres humanos na era da Inteligência Artificial. O papa aproveitou a oportunidade para uma reparação histórica. “Em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”, declarou, em referência à chancela da Santa Sé a séculos de escravidão. O reconhecimento papal deu-se dois meses depois de a Assembleia-Geral das Nações Unidas ter aprovado uma resolução na qual declara a escravatura como o maior crime contra a humanidade de todos os tempos.

Os dois enunciados não aconteceram por acaso. A declaração do Vaticano ocorre justamente num documento no qual o papa alertava para o impacto da IA e as novas formas de escravidão por conta da revolução digital e pela cobiça das grandes empresas do mundo por recursos naturais, uma vez mais depositados em solo de países que, nos últimos séculos, foram colônias. O pontífice foi claro sobre esse aspecto. Segundo ele, a Inteligência Artificial gera “novas formas de escravidão”, como a dos corpos “marcados, feridos e desgastados” daqueles que trabalham na extração dos “elementos de terras-raras” necessários para a tecnologia. Portanto, Leão XIV ressalta a importância do combate à escravidão moderna como mais um “teste decisivo para o discernimento ético” na transformação digital. Segundo ele, “a Igreja renova sua firme condenação a todas as formas de escravidão, tráfico e mercantilização de pessoas­” e não reagir a ou tolerar graves violações da dignidade humana significa tornar-se cúmplice. “Uma corrida por algoritmos cada vez mais poderosos e conjuntos de dados maiores, impulsionada pelo desejo de garantir o domínio geopolítico ou comercial”, denuncia na encíclica.