O ministro da Defesa israelita, Israel Katz, quer avançar com a “migração em larga escala” de palestinianos da Faixa de Gaza “no momento certo e da forma correcta”, escreveu nas redes sociais na quarta-feira.A declaração de vontade chega no mesmo dia em que Katz assinalou a morte de Mohammed Odeh, que tinha assumido o controlo da ala militar do Hamas há duas semanas e que Israel acusa de ter planeado ataques no dia 7 de Outubro. Nesse momento, defendeu também que se levassem a cabo “grandes movimentações” de palestinianos da Faixa de Gaza, uma ideia que não é nova no Governo israelita.Desde que Donald Trump referiu a possibilidade da construção de uma “Riviera no Médio Oriente” na Faixa de Gaza – obrigando centenas de milhares de pessoas a sair da zona —, no início do ano passado, Israel instalou um gabinete para a “migração voluntária”, subordinado ao Ministério da Defesa, e levantou algumas restrições para os palestinianos que queiram sair do enclave sem bilhete de regresso.Ainda em Fevereiro deste ano, o ministro das Finanças israelita, Bezalel Smotrich, disse que queria implementar uma forma de “encorajar a migração” de palestinianos – referindo, além de Gaza, os palestinianos da Cisjordânia —, disse num evento organizado pelo seu partido, citado pela AFP.Agora, diz Katz, a “migração” em massa aconteceria ao mesmo tempo que a saída do Hamas do poder: “O compromisso é que o Hamas não governe Gaza, em termos civis ou militares e assim será. Tudo no tempo certo e da forma certa”, escreveu no X.Advogar pela saída em massa de palestinianos do enclave pode quebrar o plano de cessar-fogo de Trump, que Israel assinou no ano passado, e que diz, no seu segundo ponto, que “Gaza vai ser desenvolvida para o benefício da população de Gaza, que já sofreu mais do que suficiente”. Questionado pelo The Guardian, um porta-voz do Ministério da Defesa não respondeu sobre o nível de compromisso de Israel com o plano de paz norte-americano.Ainda mais importante, um plano como o anunciado por Katz – que prevê a deslocação de milhares de pessoas – pode constituir um crime de guerra ou contra a Humanidade, se for forçada. Algo que o ministro da Defesa contorna ao falar em “migração voluntária”.Apesar da semântica, algumas organizações de direitos humanos e advogados já tinham alertado para a possibilidade de constituir um plano de limpeza étnica e um crime de guerra. No ano passado, a Associação para os Direitos Civis de Israel dizia que “criar condições de vida que não permitem a sobrevivência, liberdade e dignidade, e sujeitar os cidadãos a isso até que queiram sair não é um plano para encorajar a migração voluntária”.Neste momento, as eleições marcadas para o fim de Outubro poderão estar a pesar ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e outros aliados políticos, que procuram formas de “mostrar que estão a fazer alguma coisa no que toca à segurança”, afirmou Mairav Zonszein, analista do International Crisis Group, ao jornal britânico. “Infelizmente, falar de limpeza étnica em Gaza não é necessariamente alguma coisa que te prejudique em termos de política doméstica. Talvez até ajude.”