Uma simples corrida com carro de aplicativo pode virar uma operação de fiscalização municipal. Com sensores em amortecedores e câmera no para-brisa, um sistema registra buracos nas ruas, tampas de bueiro desniveladas, falhas de iluminação, excesso de fios nos postes e pichações. Os dados, analisados por inteligência artificial (IA), automaticamente geram solicitações de serviço detalhadas com fotografias, geolocalização e estimativa da gravidade do problema. A zeladoria com IA representa uma mudança de paradigma na gestão urbana de capitais e algumas cidades médias brasileiras. Em vez de aguardar denúncias da população, prefeituras passam a agir proativamente. “Hoje, cerca de 50% dos pedidos de tapa-buraco em Porto Alegre são gerados por IA. Estamos conseguindo executar a manutenção antes de receber reclamação”, diz Rafael Fleck, secretário municipal de Serviços Urbanos da capital gaúcha. A Intelicity, uma das principais fornecedoras do setor, foi fundada em 2022 com uma pergunta simples: seria possível monitorar uma cidade de forma contínua, a um custo que coubesse no orçamento da prefeitura? A resposta veio, literalmente, na forma de um produto mínimo viável. “A gente pegou um carrinho de controle remoto, prendeu uma câmera no teto e colocou dentro de uma sala”, conta Gustavo Miyake, diretor financeiro e cofundador da empresa. A IA, em uma era pré-ChatGPT, conseguiu identificar cadeiras, mesas e lápis - poderia, portanto, fazer o mesmo com postes, placas e buracos. Do carrinho miniatura para frotas de quase cem veículos só em São Paulo, foi uma questão de escala. Outras empresas, como Instituto das Cidades Inteligentes (ICI) e Mapzer, atuam de maneira parecida. Motoristas de app ou táxi recebem bonificações, em torno de R$ 200 por mês, para carregar o equipamento de inspeção. Prefeituras pagam cerca de R$ 100 por km monitorado por mês. O contrato de Porto Alegre prevê R$ 5,7 milhões ao longo de dois anos para 30 carros fiscalizarem as condições de seus 3.100 km de vias. Já a operação paulistana é mais cara e complexa: cem motoristas rodam 160 mil km/mês, por uma malha viária de 17 mil quilômetros, identificando buracos, falhas de iluminação e entulho nas calçadas, entre outras irregularidades. São Paulo tem três contratos com a Intelicity, que somam R$ 23,8 milhões, segundo o Portal da Transparência. Estamos conseguindo executar a manutenção antes de receber reclamação” O resultado da zeladoria digital vai aparecendo aos poucos. Na capital gaúcha, 60% das vias são classificadas como boas ou ótimas. O resultado não chega a impressionar, mas é notável que as bolinhas verdes, amarelas e vermelhas, que classificam a qualidade do calçamento, estão distribuídas por todo o mapa, sem grande diferença entre bairros. Em São Paulo, no início da operação, o estoque de solicitações caiu 86%, para 34 mil, e o tempo médio para atender um pedido de tapa-buraco encolheu de quatro meses para uma semana. Miyake conta que, ao detectar uma quantidade de fios nos postes acima do limite estabelecido por decreto municipal, o sistema da Intelicity permitiu à prefeitura multar concessionárias em R$ 30 milhões. O próximo desafio da empresa é adaptar sua tecnologia para identificar vazamentos na rede de água e esgoto. O governo de Minas Gerais optou por parceria com o LabTrans, laboratório da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), evitando o processo licitatório. “Firmar parceria com um ente público facilita a inovação, porque dispensa abertura de licitação. É mais difícil contratar algo pela primeira vez”, explica Pedro Calixto, secretário adjunto de Infraestrutura e Mobilidade do Estado. O monitoramento de 20 mil km de rodovias passou de semestral para mensal, e as empresas de manutenção são obrigadas a atender notificações em 48 horas. Nos primeiros seis meses de convênio, o governo registrou uma redução de 80% na quantidade de buracos. “O investimento para resolver um problema em estágio inicial é muito menor”, diz Calixto. A zeladoria digital, porém, avança com dificuldade em cidades de menor porte. “Para a realidade de muitas prefeituras brasileiras, é um serviço caro”, afirma Felipe Rezende, coordenador de sistemas do ICI. “O custo do processamento de IA não está caindo para nós”. Rezende aponta ainda uma barreira cultural: quando um sistema de IA varre a cidade e identifica 4 mil ou 5 mil buracos nas ruas, o gestor ganha um problema político. “Na mesma hora, ele olha aquilo e fala: meu Deus, como vou fazer para tratar tudo isso?”, descreve. “O cara que está numa cadeira de secretário nem sempre quer transparência”.