Disseminada no cotidiano da população, a inteligência artificial (IA) tem se tornado um recurso cada vez mais presente na fiscalização de trânsito pelo Brasil. Usada sobretudo para flagrar irregularidades como a falta do cinto de segurança e o uso do celular ao volante, tornando-se aliada importante na prevenção de acidentes, a tecnologia também desperta cautela, que passa pela necessidade de supervisão humana para sacramentar as multas e o tratamento de dados conferido às imagens de motoristas. Já são pelo menos sete estados em que a ferramenta é utilizada ou está em fase de implementação na detecção de infrações. A aplicação mais recente é nos trechos Sul e Leste do Rodoanel Mário Covas, um dos pontos de maior fluxo na Região Metropolitana de São Paulo, onde desde o início do mês condutores estão sendo autuados graças à IA. Antes, durante 49 dias de testes entre maio e junho, os equipamentos identificaram 7.297 veículos em situação irregular, uma média diária de 149 casos. Segundo a SPMar, concessionária responsável pelas vias, motoristas sem cinto responderam por 45,7% dos flagrantes (3.335 ocorrências), seguidos pela mesma infração entre passageiros (26,8%, ou 1.956). Também foram detectados 1.369 condutores usando o telefone, 18,8% do total. — O objetivo da concessionária é prevenir acidentes, apoiando a educação do motorista para que ele pense na vida antes de abrir um celular durante a condução do veículo — afirma Andrew Aquino, gerente de operações da companhia. Motorista é flagrado com celular em viagem no Rodoanel (SP) por câmera equipada com IA — Foto: Divulgação/SPMAR A distração figura entre as principais causas de sinistros nas rodovias. Levantamento da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) aponta que 90% dos acidentes envolvem algum elemento de desatenção, entre eles o manuseio de celulares. — Frações de segundos de perda de atenção podem significar a diferença entre a vida e a morte, e esse tipo de tecnologia tem um potencial enorme para reduzir as ocorrências — opina Rodolfo Rizzotto, especialista em trânsito e coordenador do SOS Estradas. — A experiência vem ocorrendo em vários países, que registraram uma redução do número de infrações, porque a partir do momento em que as pessoas passam a ser fiscalizadas, percebem que podem ser autuadas e punidas, então mudam o comportamento. No Rodoanel, sensores infravermelhos e algoritmos agora operam 24h por dia, reconhecendo o aparelho nas mãos do condutor ou a ausência do cinto, tanto do motorista quanto do passageiro dianteiro. Cada ocorrência gera registro com data, horário e local, encaminhado à Polícia Militar Rodoviária, responsável pela validação final antes da penalidade. O sistema também mapeia veículos parados no acostamento, caminhões em faixas restritas e focos de fumaça. A concessionária pretende estender o recurso às 120 câmeras do trecho até 2027, de forma gradual. — Os dados da rodovia nos mostram o comportamento habitual dos motoristas. Com a tecnologia, ganhamos agilidade para detectar e influenciar esse comportamento, aumentando a segurança do próprio condutor — explica Thiago Cavalcante, gerente de Inovação e Tecnologia da SPMar. Câmera chinesa com IA é usada em rodovias que ligam MG e GO — Foto: Divulgação/ECOVIAs Na Raposo Tavares, que liga a capital paulista ao interior, duas câmeras operam de forma contínua e registraram, em apenas três dias, mais de 700 motoristas com o celular em mãos, de acordo com a Ecovias. A meta é pelo menos dobrar os equipamentos nos próximos meses, estendendo a cobertura para trechos da Rodovia Presidente Castello Branco. Já a Motiva, antiga CCR, diz que todas as rodovias administradas hoje em São Paulo contam com um sistema de monitoramento com IA para “detecção de ocorrências” e que na Rodovia Governador Adhemar de Barros, entre Campinas e Mogi Mirim, o sistema registrou 16.147 infrações de trânsito ao longo do ano passado, a maioria por falta de cinto. Também há registros do emprego do recurso, em diferentes níveis, no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Espírito Santo e na Paraíba. 'Comportamentos anômalos' Na Ecovias Cerrado (BR-364 e BR-365) e na Ecovias Minas-Goiás (BR-050), que ligam trechos entre os dois estados, o grupo adotou câmeras com processamento de imagens embarcados nos próprios dispositivos, que são fabricados pela empresa chinesa Dahua Technology. O algoritmo realiza uma “varredura” constante para identificar o que chamam de “comportamentos anômalos” — ou seja, situações que violam o código de trânsito. Nesses trechos operados pela Ecovias, foram identificadas 2.505 irregularidades com uso de IA no primeiro semestre deste ano, crescimento de aproximadamente 10% (2.279) em relação ao mesmo período de 2025. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) realizou 258 operações de fiscalização por videomonitoramento, mais que o dobro das 111 operações registradas no mesmo período de 2025. Houve redução de 3% a 4% nos óbitos. Inteligência artificial nas estradas — Foto: Arte O Globo Assim como no teste em SP, na maioria das vezes, nesses locais, a IA detecta motoristas e passageiros sem o cinto ou motoristas ao celular. No entanto, a concessionária já flagrou, por exemplo, um caso em que uma criança era transportada no colo do passageiro, o que é proibido. Os equipamentos da Dahua têm resolução de 4.096x2.820, maior do que a do 4K de TVs domésticas, o que permite zoom e detalhamento das imagens. Elas também operam com sensores infravermelhos para detecção noturna ou de situações de baixa luminosidade. A IA, contudo, não aplica multas de forma automática, o que descumpriria uma obrigatoriedade normativa e do Código de Trânsito para que a autuação ocorra em tempo real. Assim, as câmeras enviam notificações, que também precisam ser analisadas imediatamente pelos agentes responsáveis. Não é possível, por exemplo, executar autuações a partir de registros de dias anteriores. Ainda assim, uma das preocupações é justamente o possível armazenamento dessas imagens. Especialista em privacidade e proteção de dados, Fernando Manfrin destaca que a câmera pode servir para flagrar uma infração de trânsito, mas não para vigiar a rotina de quem dirige. Por isso, a utilização da tecnologia deve observar a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), com controle de acesso, sigilo, rastreabilidade e tratamento adequado das informações. — A imagem do interior do veículo revela um espaço íntimo, onde podem aparecer diversos conteúdos pessoais e, dependendo do conteúdo registrado, até dados sensíveis — pontua Manfrin, alertando também para a possibilidade de erros de leitura. — Há um risco sério se a tecnologia evoluir de detectar comportamento para identificar rosto. No caso da Dahua, as câmeras são treinadas com um banco de dados da companhia, que tem presença em diferentes países — o algoritmo, portanto, não é aperfeiçoado especificamente com informações de brasileiros. Gerente-comercial de Infraestrutura da empresa, Carlos Carvalho pondera, no entanto, que as imagens de rodovias nacionais podem ser utilizadas com esse fim em situações específicas: — Se a concessionária notar muitos “falsos positivos” em uma câmera, podemos pedir imagens daquele local para o algoritmo ser adaptado. Mas o padrão é não armazenar e processar imagens de forma massiva. Professor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e especialista em visão computacional, Diego Bruno explica que algoritmos de detecção de imagens não são complexos, mas dependem de um bom banco de dados para que a máquina faça apontamentos corretos: — Primeiro, o algoritmo detecta o tipo do objeto. Trata-se de uma moto ou de um carro? Afinal, ele não pode gerar alerta de um motoqueiro que está sem o cinto. Como no trânsito tem um monte de tipo de veículo e situações, você vai precisar de umas 50 mil imagens pra um sistema ser bem treinado. Custo mensal Segundo Marcio Vono, coordenador de operações da Ecovias Raposo Castello, o custo de instalação por câmera, incluindo o software, fica entre R$ 100 mil e R$ 150 mil, mais um valor mensal destinado à manutenção do sistema. A iniciativa é das próprias concessionárias, mas alinhadas com as agências reguladoras, para identificar os melhores locais, e com os fiscais, a quem cabe produzir os autos de infração a partir dos incidentes. Representantes de empresas do ramo contam que recebem propostas de companhias especializadas sob a promessa de prevenir acidentes, uma vez que cada ocorrência evitada representa menos mobilização de equipes de salvamento e controle de tráfego, além da redução da chances de danos estruturais na pista — em outras palavras, economia. A expectativa é que gradualmente a tecnologia passe a constar nas exigências de contratos novos, a partir do momento em que o sistema comprovar bons resultados, pela leitura do mercado. — Chegar ao ponto de colocar a tecnologia é crítico, mas necessário. Fico perplexo, em se tratando de rodovia, com a quantidade de pessoas que deixam de usar o cinto de segurança — reforça Vono. Experiências inovadoras com a IA já foram registradas em países como Estados Unidos, Holanda, China, Índia, Emirados Árabes e Austrália. A ilha-continente implantou o método numa rodovia-piloto ainda em 2019, com um equipamento móvel que tirava fotos, analisadas depois pela inteligência artificial e pelos fiscais em conjunto. Em dois anos, o percentual de motoristas flagrados usando celulares caiu de 1% para 0,2%, conforme o divulgado à época. No Brasil, o estímulo parte principalmente das concessionárias, mas a Polícia Rodoviária Federal (PRF) demonstrou interesse em ampliar esse escopo de atuação. Em março último, o órgão público anunciou edital em que pede doações de sistemas do tipo “para uso em testes em campo por até 180 dias contínuos”. Os equipamentos, segundo a PRF, deveriam ser capazes de reconhecer placas, analisar o comportamento dos condutores, emitir alertas automáticos em tempo real e produzir relatórios, como o volume médio de veículos. “Todos os registros enviados para a central serão validados por um policial rodoviário, que tomará as medidas administrativas cabíveis, quando necessário”, aponta o documento. Procurada pelo GLOBO, a corporação informou que a instalação ainda não foi iniciada, mas sinalizou que houve interesse no mercado. “Atualmente, estão em andamento tratativas técnicas e operacionais com as empresas participantes, voltadas à definição dos pontos de instalação e à validação dos requisitos necessários à implantação das soluções”, afirmou em nota.