O CEO do Banco Master, Daniel Vorcaro — Foto: Ana Paula Paiva/Valor As últimas semanas foram pródigas em operações da Polícia Federal (PF), que atingiram das fraudes no INSS aos cúmplices de Vorcaro no caso Master, passando pela Refit, sonegadora antiga e contumaz. Para quem viu o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) receber duas visitas da PF em onze dias, a coisa teve jeitão de déjà vu, lembrando os tempos em que a Lava-Jato produzia quase toda semana cenas impressionantes de agentes devassando as mansões de figurões da política e da economia. Mas não foram apenas as imagens que lembraram o passado. Vários dos personagens também se repetem com uma frequência desconcertante, como zumbis que voltam das trevas. O exemplo mais antigo é a Refit. Mesmo acusada de simular a fabricação de combustíveis e sonegar impostos há décadas no Rio, ela continuou a expandir os negócios. Entre os funcionários do governo fluminense acusados de atuar em favor da refinaria estava Renan Saad, procurador-geral do estado que já havia sido preso na Lava-Jato em 2019, acusado de receber propina da Odebrecht para facilitar as obras da Linha 4 do metrô. Ainda assim — ou talvez por isso mesmo —, foi nomeado por Castro. No caso do Banco Master, uma dessas figuras carimbadas é o lobista Ricardo Siqueira Rodrigues, conhecido como Ricardo Gordo, que atuou nas fraudes no Rioprevidência. De acordo com a PF, ele trabalhava para Daniel Vorcaro na “captação” de aplicações para o Master, cuidando da negociação e dos repasses da propina. Quem acompanha a história de esquemas com fundos de pensão já ouve falar do Gordo desde a CPI dos Correios, que em 2005 investigou o mensalão. A partir dali, onde houvesse roubo de dinheiro dos aposentados, lá estava ele. Descoberto, fazia uma delação premiada e seguia a vida, atrás do próximo golpe. A fraude do Master é, por baixo, seu quinto caso. Histórico parecido tem a Planner, citada nos relatórios da PF como intermediadora de repasses no caso da Rioprevidência. Alvo da Operação Greenfield em 2019, foi uma das 12 corretoras denunciadas pelo Ministério Público Federal por vender ativos fraudulentos aos fundos de pensão de estatais. Pela mesma razão, foi multada em R$ 500 mil pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Seu dono era Mauricio Quadrado, já conhecido no mercado financeiro por seus rolos quando se tornou sócio de Vorcaro no Master. O grupo de Vorcaro já havia sido apontado lá em 2019 como responsável por fraudes em fundos de pensão noutra operação, a Fundo Fake, cuja história é perfeita para explicar por que, mesmo que sejam investigados, presos e processados, esses personagens voltam a cometer os mesmos crimes e passam anos enriquecendo sem ser incomodados. Naquela ocasião, ao serem pilhados pela PF pela primeira vez, Vorcaro e sua gangue vendiam ativos sem lastro a fundos de pensão de 20 municípios em diversos estados, num esquema que desviou R$ 500 milhões. Com base em perícias financeiras, documentos e e-mails, os investigadores destrincharam a fraude e pediram a prisão de todo o grupo. A prisão foi determinada pelo juiz Marcelo Elias Vieira em outubro de 2019, apenas quinze dias depois de Vorcaro conseguir autorização do Banco Central (BC) para assumir o controle do Máxima, mais tarde transformado em Master. Oito meses antes, o mesmo BC havia vetado a transferência de controle por falta de comprovação da origem dos recursos usados por Vorcaro e sócios. Até hoje, detalhes que poderiam explicar a razão da guinada são mantidos em sigilo, mas é público que pelo menos dois altos funcionários da autarquia estavam no bolso do banqueiro. Vorcaro também não chegou a ser preso, porque outro juiz federal, Nelson Liu Pitanga, revogou a decisão do colega. Depois disso, a desembargadora Maria do Carmo Cardoso, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, lhe concedeu a um habeas corpus para não ser denunciado. Livre, leve e solto, ele transformou o Máxima em Master, ampliou e sofisticou o esquema — até ser pego de novo, desta vez numa fraude 120 vezes maior. Com as investigações, os zumbis de novo começaram a sair das tumbas. Quem viver verá se, daqui a alguns anos, alguns dos acusados de hoje ressurgirão em mais alguma operação estrepitosa. Aí saberemos que, se há algo que funciona bem no Brasil, é a rede de proteção que mantém vivas as mais nocivas assombrações.
Master: Operações sobre Vorcaro trazem de volta zumbis de outras investigações
Master: Operações sobre Vorcaro trazem de volta zumbis de outras investigações














