A economia dos Estados Unidos cresceu a um ritmo anual de 2,5% nos últimos três anos. Como o crescimento do emprego foi próximo de zero, houve aumento forte da produtividade. E esse foi justamente o período em que as empresas fizeram grandes investimentos em inteligência artificial e na infraestrutura associada a essa tecnologia. Assim, uma questão relevante é se a economia americana, em função da IA e de outros avanços tecnológicos recentes, ingressou numa fase de crescimento rápido e sustentado, baseado em robustos ganhos de produtividade.PUBLICIDADEO problema, porém, é que nos dados mais recentes surgiu uma disparidade marcante entre a produtividade do trabalho e a produtividade total dos fatores (PTF), como mostra recém-publicado estudo dos economistas Hamza Abdelrahman e Andrew Foerster, do Federal Reserve (banco central) em São Francisco.A produtividade do trabalho calcula o volume produzido por hora trabalhada. Já a PTF mede a eficiência com que todos os insumos econômicos, abrangendo trabalho e capital, são combinados na produção. Historicamente, essa métrica capta melhorias estruturais profundas nos processos e nas tecnologias gerais da economia.As duas medidas moveram-se em sincronia nos Estados Unidos no imediato pós-pandemia, mas divergiram expressivmanete a partir de 2024, com a produtividade do trabalho acelerando bem mais que a PTF. Essa divergência coincide com um salto nos investimentos em IA e em infraestrutura como centros de processamento de dados.Dessa forma, apontam os pesquisadores, a alta do investimento coincide com o aumento da produtividade dos trabalhadores - e a primeira pode explicar o segundo -, mas não produziu os ganhos sistêmicos e generalizados que a PTF capta. Parece, portanto, que a melhora na produtividade até agora reflete ferramentas melhores para os trabalhadores do que um a avanço nos fundamentos da economia.PublicidadeOs economistas também realizaram exercício com um modelo estatístico de mudança de regime de crescimento baseado em dados históricos de longo prazo. Eles encontraram que, no quarto trimestre de 2025, a probabilidade de a economia estar em um regime de alta produtividade era de 57% sob a ótica da produtividade do trabalho, mas de apenas 21% quando medida pela TFP. Segundo os autores, nenhuma das duas porcentagens indica confirmação estatística definitiva de mudança para o regime de crescimento sustentado e veloz.O interessante, porém, é que há um paralelo entre o período atual e o do desenvolvimento da internet e da proliferação de computadores nos anos 90. A partir de meados de 1996, a produtividade do trabalho também começou a acelerar de forma consideravelmente mais rápida que a TFP. E, no quarto trimestre de 1997, a probabilidade de a economia estar em regime de alta produtividade, calculada via produtividade do trabalho, era de 67%, versus 30% via TFP. O fato significativo é que, à época, efetivamente um ciclo de forte crescimento sustentado se consolidou nos anos seguintes.Esse último cálculo para a década de 90 foi feito apenas com os dados disponíveis até 1997 (mas revisados), eliminando o efeito do conhecimento posterior dos fatos.Em resumo, os economistas do Fed apontam que os dados não confirmam uma mudança para um regime de maior crescimento nos Estados Unidos em função da IA, mas a analogia com os anos 1990 permite um "otimismo cauteloso"."A dinâmica daquela época era semelhante ao que temos visto nos últimos anos. Se o cenário de hoje refletir o que vivenciamos em meados da década de 1990, podemos estar nos estágios iniciais de um boom de produtividade impulsionado pela IA, que só ficará claro em retrospectiva", concluem os pesquisadores.PublicidadeA confirmação de que os Estados Unidos entrou em uma nova fase de crescimento sustentado e acelerado, porém, ainda depende de mais dados e do monitoramento da tendência das duas medidas de produtividade.Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/5/2026, quarta-feira.
Opinião | A IA já está acelerando a economia dos EUA?
Produtividade do trabalho cresceu bem mais do que a PTF, a medida mais sistêmica de produtividade, cujo aumento está mais ligado ao crescimento rápido e sustentado. A boa notícia é que, no boom da internet a partir anos 90, a alta da produtividade também começou desse jeito.








