São recorrentes as consultas de exportadores brasileiros sobre a situação tarifária dos Estados Unidos. A resposta curta é simples: ninguém mais entende integralmente o sistema, nem mesmo boa parte de Washington.PUBLICIDADEDesde o chamado “Liberation Day”, em abril de 2025, os Estados Unidos passaram a produzir uma sucessão de tarifas, exceções, ordens executivas, revisões administrativas e investigações comerciais que afetam de maneira muito distinta cada setor produtivo. O resultado lembra menos uma política comercial e mais um labirinto burocrático em ano eleitoral.O primeiro movimento, recorde-se, veio com a tentativa da administração Trump de utilizar a Lei de Emergência Econômica (IEEPA) para justificar tarifas horizontais. Várias outras tarifas se sucederam, baseadas na mesma norma.Com Trump, política comercial norte-americana entrou numa fase estruturalmente mais agressiva Foto: Brendan Smialowski/AFPEm fevereiro de 2026, a Suprema Corte restringiu a interpretação elástica da IEEPA. Derrotada, a administração Trump buscou outro fundamento legal: a Seção 122 do Trade Act de 1974, concebida originalmente para situações de desequilíbrio no balanço de pagamentos. Aplicou-se então uma tarifa horizontal de 10% a todas as importações.Leia tambémO novo momento Volta Redonda: IA traz a possibilidade de o Brasil se tornar protagonista globalReforma tributária: Drawback funciona bem; portanto, Comitê Gestor, não o corrijaAcordo Mercosul-União Europeia, enfim, chega à vigência (ainda que provisória)Entretanto, a própria Seção 122 limita a medida a 150 dias, salvo aprovação do Congresso. E convencer parlamentares, em pleno ciclo eleitoral, a manter tarifas que encarecem produtos para o consumidor norte-americano não é trivial. Para complicar, decisão recente do Tribunal de Comércio Internacional também desaprovou seu uso. O governo Trump apelou da decisão.PublicidadePor tudo isso, cresce em Washington a expectativa de nova migração jurídica. O instrumento da vez seria agora a Seção 301, o canivete suíço do unilateralismo comercial americano.A Seção 301 permite sanções contra países que supostamente discriminam empresas norte-americanas. O curioso é que a nova investigação se dedica a alegações de trabalho forçado. A inclusão da Noruega entre os países investigados sugere mais um pretexto do que uma cruzada humanitária rigorosa.No caso brasileiro, além da “301 de trabalho forçado”, há um risco adicional. Desde agosto de 2025, os EUA abriram uma investigação 301 específica envolvendo diversos temas da pauta bilateral: etanol, Pix, propriedade intelectual, serviços digitais e outras reclamações heterogêneas reunidas, atabalhoadamente, numa cesta de irritações comerciais.Após a exitosa visita do presidente Lula a Washington, há alguma expectativa de que o Brasil fique fora de eventual rodada mais rigorosa de medidas baseadas na Seção 301. Mas ninguém em Brasília deveria ser tão otimista quanto a resultados indolores dessa investigação.Hoje, o Brasil já sofre simultaneamente os efeitos de diferentes instrumentos jurídicos dos EUA: a tarifa horizontal da Seção 122; a investigação de discriminação comercial sob a Seção 301; e as medidas da Seção 232, que afetam exportações brasileiras de aço, alumínio, cobre, madeira e móveis sob o argumento de segurança nacional. Em Washington, aparentemente, até armários de cozinha podem representar ameaça estratégica.PublicidadeSomam-se ainda medidas antidumping, salvaguardas, disputas sobre classificação tarifária e loteria burocrática quanto às exceções incluídas (ou removidas) dos anexos das várias ordens executivas presidenciais.CONTiNUA APÓS PUBLICIDADEO governo brasileiro, até aqui, tem administrado a situação com relativa prudência. Houve mérito em evitar escalada retórica e em preservar espaço de negociação. Na visita a Washington, criou-se um grupo de trabalho bilateral para buscar soluções, em 30 dias.Pelo que se sabe, não houve evolução concreta, o que aumenta o risco de alguma medida inopinada nas próximas semanas, sobretudo à medida que a campanha eleitoral norte-americana se intensifica e o protecionismo volta a funcionar como linguagem política. Do lado brasileiro, cresce também a tentação de utilizar a recém-aprovada legislação de reciprocidade econômica.Fato é que a política comercial norte-americana entrou numa fase estruturalmente mais agressiva. O comércio deixou de ser tratado apenas como instrumento de eficiência econômica e voltou a ser utilizado como ferramenta de poder, pressão regional e contenção geopolítica. O Brasil, nesse cenário, precisará combinar diplomacia, técnica jurídica e ponderação. Porque, no atual ambiente comercial internacional, a pior estratégia é imaginar que a próxima rodada de negociações será a última.
Opinião | O labirinto tarifário norte-americano: nem mesmo boa parte de Washington entende mais o sistema
Comércio voltou a ser usado como ferramenta de poder, pressão regional e contenção geopolítica; Brasil precisará combinar diplomacia, técnica jurídica e ponderação











