As dívidas emitidas pelas empresas de proteínas do Brasil começaram a pagar taxas bem acima do que costumavam oferecer nos últimos meses. Desde meados de março, o retorno médio dos CRAs do setor subiu cerca de 1,2 ponto percentual, praticamente o dobro do retorno médio de 0,7 ponto percentual registrado na classe de recebíveis do agronegócio no mesmo período, de acordo os analistas do Itaú BBA. Ou seja, o risco associado a essas empresas cresceu, mesmo entre aquelas com avaliação de crédito considerada muito boa. "A abertura das taxas [leia-se aumento das taxas] parece estar ligada a uma percepção maior de risco no setor, que enfrenta uma série de fatores adversos ao mesmo tempo", observa o relatório da instituição, elaborado pela equipe de renda fixa liderada por Paula Toute. Por que as taxas subiram? O mercado está embutindo nos preços um conjunto de incertezas que pesam sobre as empresas do setor. O principal deles é a virada no ciclo do gado brasileiro: após anos de rebanho abundante e margens folgadas para os frigoríficos, o país entrou em uma fase de menor disponibilidade de animais para abate, o que empurra os custos para cima. No mercado internacional, a China, o principal destino da carne bovina brasileira, impôs uma cota de importação que equivale a 65% do volume enviado pelo Brasil em 2025. Até março, 43% desse limite já havia sido utilizado, o que levanta a dúvida sobre o que acontece no segundo semestre, quando a cota pode se esgotar. A União Europeia acrescentou mais uma camada de incerteza: exige que o Brasil comprove o cumprimento de regras sobre uso de antimicrobianos até setembro de 2026. Caso o país não atenda ao requisito, as exportações brasileiras para o bloco podem enfrentar novas restrições a partir do terceiro trimestre. Outros dois fatores completam o quadro: a recuperação lenta do rebanho nos Estados Unidos, estimada para só ganhar tração em 2028, mantém as margens das operações norte-americanas pressionadas; e o real mais forte reduz o valor em reais das receitas de exportação. As empresas em números Apesar dos riscos, as três companhias cobertas no relatório compartilham um ponto favorável: posições de liquidez robustas e dívidas com prazos longos de vencimento, o que lhes dá margem para atravessar o momento sem emergências de caixa. A MBRF, holding que reúne Marfrig e BRF após a fusão, é a que carrega o endividamento mais alto, entre 3 e 3,8 vezes o lucro operacional ajustado (Ebitda). O motivo é a combinação de um ciclo intenso de investimentos, sobretudo na BRF, com pagamentos de dividendos nos últimos 12 meses. O Itaú BBA não espera uma redução da dívida de forma relevante no curto prazo. A JBS, maior empresa de proteínas do mundo, sentiu o impacto no primeiro trimestre: apesar de receita recorde de US$ 21,6 bilhões, o lucro operacional ajustado (Ebitda) global caiu cerca de 30% na comparação anual, pressionado pela operação bovina nos EUA. A margem consolidada caiu de 7,8% para 5,2%. Mesmo assim, a diversificação ajudou: as unidades no Brasil e na Austrália registraram receita recorde, e os segmentos de aves e suínos - como a Seara e a JBS USA Pork - mantiveram margens elevadas, de 15,5% e 13,5%, respectivamente. A Minerva, por sua vez, apresenta a situação financeira mais confortável do trio, com endividamento de 2,8 vezes e uma queda consistente nesse indicador ao longo de 2025. A empresa concluiu no ano passado a compra de diversas plantas da antiga Marfrig na América do Sul, ampliando a capacidade em 42% e ganhando flexibilidade para redirecionar exportações conforme as cotas - um trunfo para contornar o limite imposto pela China ao produto brasileiro. El Niño no radar O segmento de frango vive um momento favorável: os custos de ração caíram com as safras recordes de grãos em 2024 e 2025, e a demanda externa segue aquecida. O Brasil exportou 4,8 milhões de toneladas de carne de frango em 2025, recorde histórico, e manteve esse ritmo no início de 2026. Para empresas diversificadas como BRF e JBS, essa divisão tem ajudado a compensar as dificuldades na carne bovina. Mas os principais riscos para o setor avícola são o retorno dos custos de grãos, caso o El Niño afete a safrinha de milho no Centro-Sul, e um crescimento da oferta acima do esperado, que poderia comprimir as margens. O que esperar A leitura geral do relatório é que, após o recente aumento nas taxas, os CRAs do setor passaram a refletir melhor os riscos, e oferecem taxas acima da mediana histórica do segmento. Para o investidor disposto a ficar com os papéis, o momento pode ser de oportunidade. Mas os riscos, especialmente para quem tem exposição concentrada em carne bovina, permanecem.
Taxas dos CRAs de Minerva, BRF e Marfrig disparam e riscos seguem no radar
Setor de proteína animal vê os preços dos títulos de dívida caírem, com incertezas elevadas no mercado de carne bovina.














