A decisão da União Europeia de suspender as importações de produtos de origem animal do Brasil derrubou as ações dos frigoríficos nesta segunda-feira (8). JBS, Marfrig e Minerva caíram na bolsa, em meio às preocupações sobre os impactos para as exportações brasileiras de carne bovina e frango. A medida, que entra em vigor em 3 de setembro, foi anunciada sob a justificativa de que o Brasil não oferece garantias suficientes sobre o controle do uso de determinados antimicrobianos na pecuária. O veto atinge exportações de carne bovina, frango, pescado, ovos, mel e animais vivos. Segundo dados do Agrostat, o mercado afetado movimentou US$ 1,8 bilhão em 2025, sendo US$ 1,1 bilhão em carne bovina e US$ 762 milhões em carne de frango. Embora o valor pareça alto, Luca Vello, analista dos setores de agronegócio, frigoríficos, papel e celulose e mineração da Genial Investimentos explica que o montante representa apenas uma pequena parcela do faturamento das maiores companhias do setor. Segundo ele, o mercado pode estar olhando para o lugar errado. "O principal problema não é a perda de volume exportado, mas a perda de rentabilidade dessas vendas", afirma. A União Europeia é considerada um mercado estratégico para os frigoríficos brasileiros não só pelo volume importado, mas, sobretudo, pelos preços pagos pelos produtos. Em geral, os embarques destinados ao bloco europeu têm maior valor agregado e rentabilidade superior à obtida em outros mercados. No caso da carne bovina, um dos exemplos é a chamada Cota Hilton, acordo comercial que possibilita a exportação de cortes nobres para a Europa com condições tarifárias mais favoráveis. Em relação ao segmento de frango, a região europeia havia reaberto recentemente parte de seu mercado para o produto brasileiro. A preocupação de Vello não é necessariamente uma queda nas exportações, mas o fato de que parte da produção destinada à Europa tenha de ser redirecionada para mercados que pagam menos. Se isso acontecer, o impacto pode aparecer primeiro na rentabilidade das empresas, já que os frigoríficos passariam a vender uma parte da sua produção com retornos menos atrativos. Outro ponto importante é que o veto vale apenas para produtos de origem brasileira. Ou seja, frigoríficos com operações em outros países da América do Sul continuam podendo abastecer o mercado europeu normalmente. Conforme explica o analista da Genial, é por isso que os efeitos da medida estabelecida pela União Europeia podem ser distintos entre as empresas do setor listadas na B3. Minerva aparece como a mais protegida Embora seja uma companhia focada exclusivamente em carne bovina, a Minerva possui uma ampla rede de plantas na Argentina, Paraguai, Uruguai e Colômbia. Segundo estimativas da Genial, a parcela da receita diretamente exposta ao veto europeu representa entre 2% e 4% do faturamento bruto da companhia. Além disso, parte dos embarques que sairiam do Brasil pode ser redirecionada para unidades localizadas em países que continuam autorizados a exportar para a União Europeia. Por esse motivo, o analista classifica a Minerva como uma das empresas mais defensivas. JBS tem a vantagem da diversificação No caso da JBS, a exposição é ainda menor, uma vez que a companhia possui operações espalhadas por diversos países, incluindo Estados Unidos, Austrália e Europa. Além disso, controla empresas como a Moy Park, no Reino Unido, e a Vivera, na Europa. A estimativa é que o fluxo de exportações brasileiras para a União Europeia represente algo entre 0,5% e 1,5% da receita consolidada do grupo. Nesse caso, Vello comenta que a medida gera mais ruído de curto prazo para as ações do que uma mudança estrutural nos fundamentos da companhia. MBRF tem um ponto de atenção A situação da MBRF é um pouco mais complexa porque envolve tanto carne bovina quanto frango, por meio da BRF. Segundo os cálculos do analista, 2,5% da receita consolidada do grupo está exposta ao veto europeu. Desse total, 1% vem da operação de carne bovina e pode ser parcialmente realocado para países do Mercosul. Os outros 1,5% estão ligados à operação de aves da BRF. Ao contrário da carne bovina, em que a produção pode ser transferida para plantas localizadas em países vizinhos, a BRF concentra a maior parte de sua produção de frango no Brasil e não possui a mesma flexibilidade para redirecionar exportações destinadas à Europa. É por esse motivo que o analista vê a empresa como a mais exposta aos riscos da decisão europeia. O que pode acontecer agora? O governo brasileiro já iniciou as negociações para tentar reverter a decisão antes da entrada em vigor das restrições. Segundo Vello, existem dois caminhos principais para recuperar o acesso ao mercado europeu. O primeiro é ampliar as restrições ao uso dos medicamentos questionados pela União Europeia, enquanto uma segunda alternativa seria implementar sistemas de rastreabilidade capazes de comprovar que os produtos exportados não utilizam essas substâncias. Enquanto isso, as empresas trabalham para redirecionar parte dos embarques para outros mercados, como Ásia, Oriente Médio e Estados Unidos, onde a demanda por proteína animal continua aquecida. Na avaliação de Vello, o cenário mais provável hoje não é uma perda integral das exportações para a Europa, mas uma combinação de negociações diplomáticas, ajustes operacionais e realocação de volumes. Caso esse cenário se confirme, o analista acredita que o impacto para os frigoríficos tende a aparecer mais nas margens de lucro do segundo semestre do que em uma queda das receitas. — Foto: Divulgação
União Europeia barra carne do Brasil: quem perde mais entre JBS (JBSS32), MBRF (MBRF3) e Minerva (BEEF3)?
A medida, que entra em vigor em 3 de setembro, foi anunciada sob a justificativa de que o Brasil não oferece garantias suficientes sobre o controle do uso de determinados antimicrobianos na pecuária










