As taxas de retorno de títulos privados — como debêntures, Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) — dispararam no primeiro quadrimestre de 2026. Isso significa, na prática, que os investidores passaram a exigir uma remuneração muito maior para “emprestar dinheiro” às empresas, porque entendem que os riscos aumentaram. Segundo analistas, essa alta foi fruto da combinação de juros altos persistentes, uma sequência de pedidos de recuperações judiciais e extrajudiciais e um aumento da percepção de risco. E o pior: o cenário não deve mudar tão cedo. Mas, segundo os especialistas, ainda existem oportunidades nesse mercado, mas é preciso estar atento para investir. Mas antes, vamos às explicações: o "spread", nome dado às taxas de retorno desses ativos, é a diferença entre a taxa de juros paga por um título privado e a taxa de um investimento em títulos públicos (considerados os mais seguros). Essa diferença também é chamada de “prêmio de risco”. Ou seja: quanto a mais o investidor ganha por correr o risco de emprestar dinheiro para uma empresa em vez de para o governo. Um levantamento realizado pela Pop BR, precificadora de ativos de crédito da LUZ Soluções Financeiras, mostra que o spread médio dos CRAs negociados no mercado secundário chegou a 5,62% no primeiro quadrimestre deste ano, contra 1,36% no mesmo período do ano passado. Já nas debêntures, ele atingiu 2,66% contra 1,48% de um ano antes. Nos CRIs, as taxas saíram de 1,40% nos primeiros quatro meses de 2025 para 2,14% em 2026. E o que isso significa? Quando o spread sobe, é sinal de que os investidores estão vendendo esses títulos privados mais baratos no mercado secundário (ou só aceitando comprá-los a preços mais baixos). Como o preço do título cai, a rentabilidade (taxa) que ele oferece sobe. Com isso, o spread aumenta. Spread médio por quadrimestre Ativo Janeiro a abril de 2025 Janeiro a abril de 2026 Debênture 1,48 2,66 CRI 1,40 2,14 CRA 1,36 5,62 Olhando apenas para o mês de março, por exemplo, a disparada foi ainda maior: os spreads dos CRAs chegaram a 12,32% contra 1,58% do mesmo mês no ano passado. Já nos CRIs, o número saiu de 1,21% para 3,62%. Nas debêntures, foi de 1,21% para 4,30%. O levantamento foi feito com base em uma amostra de mais de 1.700 debêntures, 550 CRAs e 670 CRIs. Spreads médios por mês (%) Ativo jan/25 fev/25 mar/25 abr/25 jan/26 fev/26 mar/26 abr/26 Debênture 1,32 1,46 1,21 1,91 2,37 1,81 4,30 2,97 CRI 1,30 1,37 1,21 1,75 1,68 1,76 3,62 2,30 CRA 1,33 1,34 1,58 1,21 1,47 10,93 12,32 2,89 O que explica essa alta tão forte? Para André Morino, consultor da Luz Soluções Financeiras responsável pelo levantamento, um dos principais motivos da alta foi o aumento dos pedidos de recuperação judicial de empresas relevantes e que têm muitos títulos no mercado. “A percepção que a gente tem é que a frequência desses eventos nessas companhias vem aumentando. Não são mais casos isolados. E aí há um efeito secundário, de caráter sistêmico, que é o aumento da percepção de risco do investidor em relação aos títulos de crédito privado", explica. Segundo levantamento da empresa de tecnologia Neot, em 2025 foram feitos 2 mil novos pedidos de recuperação judicial no Brasil, com volume financeiro acima de R$ 98 bilhões. Já os pedidos de recuperação extrajudicial foram 112 em 2025, que totalizaram R$ 16 bilhões. Um exemplo recente que ajuda a entender o efeito desses pedidos nesse mercado foi o caso da Raízen. A companhia confirmou em março a recuperação extrajudicial, com passivo estimado em R$ 65,1 bilhões. Na ocasião, a empresa afirmou que as operações seguiriam normais e que o processo teria escopo estritamente financeiro, mas o impacto no mercado de crédito já estava feito. Para se ter uma ideia do tamanho do efeito, excluindo os papéis da companhia do cálculo, o spread médio dos CRAs seria de apenas 2,30% em março e de 2,43% em abril. Para Guilherme Almeida, principal analista de renda fixa da Suno Research, a demanda aquecida por títulos isentos nos últimos anos levou muitas empresas a emitirem papéis a um custo elevado, já que o cenário atual é de juros altos. “Essa quantidade de emissões a juros altos levou muitas empresas a dificuldades financeiras, especialmente as mais endividadas. Depois, esses pedidos de recuperação judicial e extrajudicial começaram a estourar e trouxe uma percepção adicional de risco", diz. De quebra, o conflito no Oriente Médio adiciona ainda mais pressão ao cenário. Isso porque, com a guerra, houve uma escalada do petróleo, que trouxe consigo mais risco de inflação global. Assim, os juros devem continuar em patamares elevados por mais tempo. Ou seja: as companhias continuam com endividamento alto. Otávio Faria, analista de crédito da Eleven Financial, aponta um outro problema, mas de caráter mais estrutural. Na visão dele, boa parte do dinheiro que "inundou" o mercado de crédito nos anos de excesso de liquidez não passou pelo mesmo nível de diligência exigido, por exemplo, em uma oferta pública de ações. "Muito dinheiro entrou e foi colocado nessas empresas sem muito cuidado. Fundos, bancos, gestores não exigiram a governança adequada dessas empresas. O dinheiro entrou, muitas vezes não foi para onde era desejado e as empresas se endividaram", afirma. Agora, com juros em dois dígitos, essas empresas precisam pagar uma dívida cara. Então, é hora de fugir desse mercado? Embora o cenário pareça caótico, não significa que é hora de fugir desse tipo de ativo, mas sim de escolher melhor na hora de investir, o que não é uma missão exatamente fácil. Apesar de a pessoa física poder investir diretamente nesses ativos, esse tipo de aplicação não é simples, já que cada título pode trazer características e condições bastante distintas. Segundo os analistas, para avaliar se um papel é atrativo, é necessário avaliar: o risco de crédito, as garantias envolvidas, o nível de remuneração, o histórico de adimplência da empresa emissora e se o preço está adequado ao risco assumido. Essas informações, no entanto, nem sempre são de fácil acesso, principalmente para o investidor de varejo. Além disso, sua interpretação exige um conhecimento mais aprofundado de mercado financeiro e até de noções contábeis. E, segundo especialistas, ainda é uma parcela reduzida de investidores que domina bem esse tipo de análise. “Hoje, quem vai investir em crédito precisa olhar tudo com muito cuidado e em detalhes: entender como a empresa gera caixa, quem são os controladores, qual é a estrutura do negócio e o nível de risco envolvido. Mesmo quando há confiança no intermediário ou no agente autônomo, isso não substitui a análise. E, na ausência de garantias sólidas, o investidor precisa ser remunerado com uma taxa de juros mais alta para compensar esse risco”, afirma Faria, da Eleven. Almeida, da Suno, destaca um outro ponto importante: o investidor não pode ser atraído apenas pela isenção do Imposto de Renda nesses papéis. “O que sempre move o investidor quando a escolha é individualizada é a taxa. Ele olha o rendimento, a isenção e só depois o produto. Aqui, se faz ainda mais necessária a avaliação do risco”, afirma. O mercado também precisa evoluir Apesar dos riscos envolvidos, o mercado de crédito privado no Brasil tem crescido em volumes recordes, mas ainda enfrenta limitações estruturais que dificultam sua maturação. A começar pela liquidez. Diferentemente de ações, CRIs, CRAs e debêntures costumam ter liquidez reduzida no mercado secundário. "Você compra e acaba ficando ali parado", resume Faria, da Eleven. Para ele, o investidor que entra nesses ativos precisa ter clareza de que não estará fazendo uma aplicação simples de renda fixa. "Vai ter que fazer um acompanhamento como se fosse uma ação”, sugere. A transparência das emissoras também é um ponto crítico. Ao contrário de companhias de capital aberto, que são obrigadas a publicar resultados, manter relações com investidores e seguir regramentos da B3, muitas empresas emissoras de CRIs e CRAs têm obrigações de divulgação bem mais limitadas. "Quando a empresa coloca os títulos à venda, ela coloca suas informações naquela foto. Mas não existe exigência de publicação de mais informações durante o prazo de vencimento do título. Você faz a diligência para a oferta pública e muitas vezes para-se aí", aponta Faria. Mas isso não significa que não aconteceram avanços importantes nessa indústria. Almeida, da Suno, destaca que a CVM endureceu as regras no início de 2025, restringindo as emissões de CRIs e CRAs apenas a empresas cuja atividade-fim esteja, de fato, ligada aos setores imobiliário e do agronegócio. Ele pondera, no entanto, que o ritmo de desenvolvimento regulatório deve ser lento neste ano. "Estamos em um momento em que a CVM passa por mudanças, com a saída do último presidente, entrada de novo. Há muitas outras pautas que acabam escanteando esse debate", avalia. A boa notícia, contudo, é que os spreads mais altos, por definição, significam ganhos maiores para quem comprar agora, desde que o investidor saiba o que está comprando. O mercado, por sua vez, tende a se autocorrigir. Emissores com histórico de governança sólida deverão ter acesso mais fácil e barato ao capital, enquanto os demais encontrarão portas fechadas. "Quando a empresa se convence a ter governança, ela tem acesso ao capital mais fácil", resume Faria.