O Brasil entrou pela primeira vez no grupo de países com muito alto desenvolvimento, segundo os dados do Radar Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM), divulgado na manhã desta terça-feira. A análise do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) em parceria com o IBGE e a Fundação João Pinheiro comparou os resultados de 2012 a 2024, período em que o índice brasileiro passou de 0,744 para 0,805. O crescimento, no entanto, não foi suficiente para aplacar as desigualdades do país, principalmente nos recortes raciais e de gênero. O IDHM varia de 0 a 1 e, quanto mais próximo de 1, mais desenvolvido é o local. Dessa forma, a leitura se dá assim: O IDHM brasileiro considera as mesmas três dimensões do IDH Global (longevidade, educação e renda), mas adequa a metodologia ao contexto do país. A análise abrange os 26 estados e o Distrito Federal, as 20 regiões metropolitanas, a Região Integrada de Desenvolvimento (RIDE) da Grande Teresina e cinco macrorregiões. Os resultados foram calculados usando como base os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com a equipe técnica e pesquisadores da Fundação João Pinheiro. O compilado de dados traz comparativos de gênero e de raça, que mostram as diferenças sociais entre homens e mulheres, que são ainda mais graves quando se analisa a disparidade entre brancos e negros. Diferença entre brancos e negros Mesmo que, nos últimos anos, a evolução do índice de desenvolvimento para a população negra tenha acontecido em um ritmo maior que o da população branca — 10,3% conta 5,5% —, não foi o suficiente para acabar com as defasagens. Enquanto o IDHM dos brancos evoluiu de 0,804 em 2012, para 0,851 em 2024, o da população negra (pretos e pardos) saiu de 0,694 para 0,774 no mesmo intervalo de tempo. O fato é que em 2024, a população negra ainda tinha IDHM 10% inferior ao de brancos (0,774 contra 0,851). No caso da população branca, em uma análise detalhada dos subíndices de 2012 para 2024, o IDHM de Renda saiu de 0,781 para 0,806, com a renda per capita crescendo de R$ 1.029,68 para R$ 1.208,58. Já a dimensão Longevidade registrou uma evolução de 0,890 para 0,913, com a expectativa de vida saindo de 78,40 anos para 79,80 anos. Por fim, na Educação, foi de 0,748 para 0,838 com a porcentagem da população adulta com ensino fundamental completo passando de 66,38% para 76,63%. A mesma análise na população negra mostra um o IDHM Renda passando de 0,670 para 0,712 em 2024, com a renda domiciliar per capita subindo de R$ 518,57 e R$ 673,65, pouco mais da metade da população branca. No campo da Longevidade, o índice foi de 0,800 para 0,846 em 2024, fazendo com que a esperança de vida saísse de 72,78 para 75,73 anos. E o IDHM Educação subiu de 0,623 para 0,770, elevando a taxa de pessoas com 18 anos ou mais de idade com ensino fundamental completo de 53,02% para 67,33%. Há uma disparidade também quando se trata de gênero. O IDHM das mulheres passou de 0,736 para 0,798, enquanto o recorte para os homens mostra um aumento de 0,737, em 2012, para 0,802, em 2024. Isso mostra que, enquanto os homens atingiram o patamar de muito alto desenvolvimento humano, as mulheres permaneceram no patamar de alto desenvolvimento humano. Quando se analisa especificamente a questão da renda, é possível identificar que, em 2024, a distância entre homens e mulheres aumentou, com o rendimento médio feminino em R$ 1.260,45 e o dos homens em R$ 1.604,30. Já na questão da longevidade, em 2024 foi registrada a menor diferença entre os grupos, com a esperança de vida entre mulheres de 79,88 anos e a dos homens de 73,3 anos. Análise de estados Quando o recorte se volta para os estados, os destaques são Alagoas, Piauí e Rio Grande do Norte, que registraram os maiores crescimentos dos respectivos IDHMs. Dos 26 estados mais o Distrito Federal, 10 unidades federativas alcançaram o nível mais alto da escala que mede o desenvolvimento humano, enquanto as outras 17 se inseriram no patamar de alto desenvolvimento humano. Mesmo com o crescimento, a disparidade entre as regiões permanecem. Em 2024, por exemplo, o IDHM atingiu o valor de 0,866 no Distrito Federal e 0,838 em São Paulo, enquanto registrou 0,745, no Maranhão e 0,746 em Alagoas. Nove UFs registraram IDHM superior ao do Brasil: todos os estados das regiões Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) e Sudeste (São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santos e Minas Gerais), além de Mato Grosso e Goiás. Renda, educação e longevidade Os três subíndices que compõem o IDHM ascenderam de 2012 a 2024, ainda que suas trajetórias não tenham sido lineares. Em todas as análises foi possível identificar um recuo do desenvolvimento por conta da pandemia, que O índice da Educação foi o que apresentou a maior evolução no período, com taxa de crescimento médio anual de 1,35%. Para o cálculo, são usados indicativos de escolaridade da população e frequência escolar. O primeiro, mede a proporção de pessoas de 18 anos ou mais com ensino fundamental completo. No período de 2012 a 2024, este indicador passou de 59,53% para 71,38%. O Distrito Federal é o local que aparece com o maior percentual: 83,38%. Já a Paraíba é a que aparece com menor: 59,14%. O índice de Longevidade é calculado usando como base o dado de esperança de vida ao nascer, que projeta um número médio de anos que um recém-nascido viveria, mantendo-se constantes as taxas de mortalidade. De 2012 a 2024, o indicador apresentou trajetória de crescimento, interrompida por duas quedas consecutivas em 2020 e 2021, por conta da Covid-19.A taxa retomou trajetória ascendente a partir de 2022, mas registrou uma redução em 2024. O local que aparece no estudo com menor expectativa de vida é o Amapá, com 74,32 anos, e o com maior é o Distrito Federal, onde a expectativa é de 79,75 anos. Já o IDHM Renda, que analisa o valor domiciliar per capita, apresentou trajetória de altos e baixos, com quedas em 2015, 2016, 2020 e 2021. Nesse último ano, também em razão da pandemia, o valor registrado foi inferior ao de 2012. Nos outros anos, o crescimento da renda domiciliar per capita foi acompanhado pela diminuição da proporção de pessoas vulneráveis à pobreza e do Índice de Gini, criado para medir o grau de concentração de renda. Os dois apresentaram, respectivamente, taxas de crescimento médio anual de -3,46% e -0,54%.