A crise com as tarifas impostas pelo governo de Donald Trump abalou a relação comercial histórica entre Brasil e Estados Unidos. O desejo geral é restaurar os laços com o parceiro tradicional, mas empresários seguem cautelosos à espera de novas taxas. Nos primeiros quatro meses deste ano, as exportações aos EUA somaram US$ 10,9 bilhões, queda de 16,7% em relação a 2025, ou US$ 2,2 bilhões. Com isso, o período de janeiro a abril registrou o valor mais baixo de exportações aos EUA em três anos. As importações caíram pelo 5º mês consecutivo. No acumulado de janeiro a abril, o déficit comercial atingiu US$ 1,3 bilhão e se ampliou em 35%, comparado ao mesmo período de 2024. “Este ano começou com uma retração bastante forte das exportações”, alerta Abrão Neto, CEO da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham). A queda ocorreu mesmo com a decisão da Suprema Corte que derrubou as tarifas abrangentes em 20 de fevereiro. O executivo lembra que nesse período, em grande parte do tempo, as sobretaxas de até 50% em relação ao Brasil eram vigentes. Contribuiu para o resultado negativo em 2025, segundo ele, a redução das vendas de petróleo bruto e combustíveis brasileiros para os EUA, reflexo de uma menor demanda das refinarias locais. Se for considerado apenas o ano de 2025, o tombo nas exportações foi de 6,6%. “O impacto das sobretaxas foi mais carregado nos produtos que estiveram sujeitos a tarifas mais elevadas, de 40% a 50%. São sobretudo itens industriais, da indústria de transformação, máquinas e equipamentos, produtos derivados de madeira, da indústria siderúrgica”, pontua. O resultado traz receio com a queda no patamar de participação dos EUA como destino de exportações brasileiras. “É uma trajetória que, obviamente, dependerá do cenário tarifário daqui para frente, mas é um ponto de atenção na relação bilateral”, afirma. Apesar desse receio, houve alta das importações em 2025 e aumento da corrente comercial (atingiu US$ 82,8 bilhões, volume superior a 2024). No momento, a apreensão é com o anúncio de novas tarifas. Há duas investigações contra o Brasil sob a chamada Seção 301. A principal, de 2025, aborda itens como Pix, pirataria, etanol e desmatamento ilegal. A outra, deste ano, é sobre práticas desleais e trabalho forçado em 60 países. Além disso, há taxas específicas sobre produtos como aço e alumínio brasileiros. O encontro dos presidentes Lula e Trump, em 7 de maio, trouxe um alento contra um novo tarifaço, depois de um período de críticas crescentes do brasileiro à guerra no Irã. A Amcham elogiou a iniciativa e diz que a expectativa é que abra caminho para resultados concretos em termos de tarifas, minerais críticos, economia digital e energia. Este ano começou com uma retração bastante forte das exportações” O CEO da entidade ressaltou que será fundamental avançar com pragmatismo e celeridade nas reuniões de trabalho anunciadas, que têm prazo de 30 dias. Onze dias depois do encontro Lula-Trump, o grupo de trabalho bilateral ainda não tinha se reunido - em função da visita do americano à China. A Amcham espera que o setor empresarial tenha voz ao longo do processo. A aposta do Palácio do Planalto é que a aproximação dos presidentes vá afastar o risco de novas tarifas, conforme o presidente brasileiro declarou ao jornal The Washington Post no último dia 17. O sinal importante de distensão, porém, não implica que não ocorrerá novo estresse, ressalta Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. Pesquisa realizada pela Amcham em abril com seus associados mostrou que 86% das empresas estão preocupadas com novos aumentos. Se o governo Trump optar por novas tarifas, a torcida é para que não coloquem o Brasil em desvantagem em relação aos demais parceiros americanos. “Esse é um cenário de possível recuperação das exportações brasileiras”, diz o CEO da Amcham. Se, por outro lado, o Brasil receber tarifas mais elevadas que os competidores, “pode haver uma retração ainda mais forte das exportações”, alerta Neto. Para o dirigente, neste momento as negociações são fundamentais. “Essa equação passa tanto pelo setor empresarial como pela atuação dos governos. O lado empresarial não substitui o que pode haver de potencial entendimento entre os governos e vice-versa.” As negociações também podem ser impactadas pelo pleito presidencial no Brasil e pelas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. “O ideal é que essas conversas [comerciais] possam avançar ainda neste primeiro semestre. Depois, as atenções ficam mais voltadas para o cenário político interno. Isso é um fator de preocupação”, diz Abrão Neto. Nesse panorama, empresas brasileiras reveem seu planejamento. Há diversificação de parceiros comerciais, revisão de estratégias aduaneiras e até participação mais ativa no mercado americano. Esse “advocacy empresarial” está mais ativo, segundo Abrão Neto, e é feito em conjunto na interlocução com os dois governos.
Hora de reconstruir a relação bilateral entre Brasil e EUA
Embora cauteloso, empresariado brasileiro espera que negociações de Lula e Trump avancem e permitam retomada dos embarques










