Abril foi o nono mês consecutivo de queda no valor das exportações brasileiras aos EUA. O tombo foi de US$ 3,1 bilhões, 11,5% em relação ao mesmo mês do ano passado. Mas, apesar do resultado negativo, o ritmo de baixa diminuiu. Há uma acomodação no comércio bilateral por parte de vários setores, que ainda depende da evolução das negociações entre os governos e do risco de novas taxas. No acumulado de janeiro a abril, houve queda importante nas exportações tanto para bens sobretaxados quanto para os isentos. Os bens sem sobretaxa caíram 16,4%, enquanto os bens com sobretaxa recuaram 17%, aponta levantamento da Amcham. Dentro da Seção 232, os setores de cobre, caminhões e madeira apresentaram quedas. Os produtos sujeitos à sobretaxa de 10% registraram o maior recuo entre os produtos sobretaxados (-23,7%). Em 2025, de janeiro a dezembro, as exportações brasileiras para os EUA encolheram 6,6% no total e apresentaram queda em todos os setores: indústria de transformação (-4,2%), indústria extrativa (-19,2%) e agropecuária (-3,8%). E em todos os casos a queda foi maior ou contrariou as tendências de crescimento nas vendas do Brasil para o restante do mundo, ressalta a Amcham. A indústria brasileira foi um dos segmentos mais afetados. Registrou no ano passado sua primeira retração desde 2020 (-4,2%). A baixa interrompeu uma sequência de quatro anos consecutivos de crescimento. Mesmo assim, os EUA se mantiveram como o principal destino das exportações industriais brasileiras, respondendo por US$ 30,2 bilhões, ou 16% do total, à frente da União Europeia (US$ 23,6 bilhões) e do Mercosul (US$ 23,5 bilhões). Já as importações originárias dos EUA também registraram retração no primeiro quadrimestre de 2026. Recuaram 13%. Em 2025, no entanto, tiveram crescimento de 11,3% em relação a 2024. O ano passado registrou o segundo maior valor histórico de compras de produtos americanos, atingindo US$ 45,2 bilhões (contra US$ 40,7 bilhões no ano anterior). Foi o terceiro ano consecutivo de crescimento e os Estados Unidos se mantiveram como a segunda principal origem das importações do Brasil, respondendo por 16,1% do total. Em 2025, a indústria de transformação permaneceu como o setor mais representativo nas importações provenientes dos EUA, correspondendo a 91,1% do total, alta de 15,0% em relação ao ano anterior (de US$ 35,8 bilhões para US$ 41,2 bilhões), aponta a Amcham. Já as indústrias extrativa e agropecuária sofreram quedas nas compras dos EUA de -15,4% e -35,2%, respectivamente. Lia Valls, pesquisadora do FGV Ibre e responsável pelo Indicador de Comércio Exterior (Icomex) do instituto, lembra que no ano passado a queda nas exportações para os EUA foi compensada principalmente pelo aumento das vendas para a China no segundo semestre. Enquanto o volume exportado para os EUA recuou 21,3% entre agosto e dezembro de 2025 em relação ao mesmo período do ano anterior, para a China foi registrado aumento de 29,8%. A balança comercial com os Estados Unidos passou de um déficit de US$ 300 milhões para US$ 7,5 bilhões entre 2024 e 2025. “É impressionante como aumentou esse déficit”, afirma Valls. “O que chama atenção não é o aumento das importações dos produtos dos EUA, é a queda nas exportações ao país”, diz. A especialista do FGV Ibre aponta que as exportações aos EUA começaram a cair a partir de julho. Entre agosto e setembro de 2025, em relação ao ano anterior, caíram praticamente para todos os setores levando-se em conta os segmentos da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) do IBGE. Segundo a economista, isso acabou compensado em geral por aumento nas exportações brasileiras a outros países, em especial de commodities. Ela lembra que em muitos casos esse resultado provém de empresas multinacionais americanas com filiais no Brasil, que têm mais facilidade em redirecionar suas vendas para outros mercados. Calculo que daqui a dois ou três meses talvez a gente já comece a equilibrar a balança” Ela ressalta que os dados de 2026, até abril mostram o aumento da tendência de déficit com os EUA. “Enquanto imperar essa incerteza no comércio com os EUA, quem puder vai desviar sua produção para outros mercados. Essa tendência de queda nas exportações aos EUA acontece mesmo.” Diferentemente do comércio de bens, o comércio de serviços entre Brasil e EUA apresentou um aumento relevante em 2025, tanto nos fluxos de importação de serviços (US$ 25,7 bilhões) quanto nos de exportação (US$ 14,3 bilhões), com aumento de 17,0% e 11,7% em relação a 2024, aponta a Amcham, a partir de dados do Banco Central. Mesmo com a crise do tarifaço, a balança comercial brasileira, em geral, foi relativamente pouco afetada e a economia no fim se saiu bem, ao contrário do que aconteceu em outros momentos, afirma Sergio Vale, da MB Associados. “Se olharmos o câmbio e a bolsa em momentos de crise no passado, a gente teria tido muito mais dificuldades. O câmbio teria depreciado”, diz Vale. Entre as razões, o economista cita avanços como a reforma tributária e a aprovação do projeto de lei dos minerais críticos. “Também há o efeito positivo da exportação de petróleo bruto. O país continua tendo dificuldades, mas está se saindo relativamente bem.” A preocupação maior agora, de fato, é com o que virá das duas investigações nos EUA baseadas na Seção 301. “Essas seções são mais complicadas, o impacto delas é muito mais duradouro, de prazo muito mais longo de resolução”, afirma. Para Vale, a crise coloca o desafio de buscar outros parceiros. O acordo Mercosul-União Europeia, que entrou em vigor em 1º de maio, e o avanço do comércio com a China são caminhos naturais. Porém, o abalo não vai significar necessariamente uma mudança na relação comercial com os Estados Unidos. “Calculo que daqui a dois ou três meses talvez a gente já comece a equilibrar a balança com os EUA. É um mercado que gente não pode abandonar. Todo mundo quer vender para os EUA”, diz José Augusto de Castro, da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Ele diz que a crise é uma oportunidade para o Brasil repensar os custos da sua produção local.
Exportações do Brasil aos EUA caem há nove meses consecutivos
Apesar da crise na relação bilateral, economia brasileira reagiu bem, na avaliação do economista Sergio Vale














