Apocalipse dos Trópicos, de Petra Costa, recém estreado na Netflix, pretende abordar um tema muito relevante – e sistematicamente debatido por pesquisadores, jornalistas, ativistas e religiosos: o embricamento entre a ascensão dos evangélicos e da extrema-direita no Brasil. A escolha de personagens centrais e a narrativa apocalíptica, contudo, geram um resultado estereotipado, que desperdiça a oportunidade de levar ao público um olhar que ajude a situar os dilemas da participação pública da religião em sociedades democráticas. Analisar os destaques e os silêncios do filme nos dá a oportunidade de acrescentar um elemento fundamental na equação religião + ultradireita: o papel da mídia e das redes sociais.
O filme é narrado em primeira pessoa pela própria diretora. O grande protagonista, contudo, é o pastor e televangelista Silas Malafaia. Essa escolha limita a compreensão do papel das igrejas evangélicas no governo Bolsonaro e no 8 de Janeiro. O líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo não é o único a tentar influenciar os rumos da política e a participar das alianças que elegeram presidentes de esquerda e de direita nos últimos anos. E a identidade evangélica é muito mais fragmentada, heterogênea e permeada por disputas internas, mesmo entre os grupos das direitas evangélicas, e clivagens distintas.






