Para quem acha que o mundo anda turbulento demais hoje, os documentários do jornalista espanhol Jordi Évole ajudam a colocar a história recente em perspectiva —e, sobretudo, a levantar perguntas inquietantes sobre o presente.

Considerado um dos principais entrevistadores da Espanha, Évole conversou ao longo da carreira com chefes de Estado, empresários, religiosos e personagens centrais da política contemporânea. Na América Latina, entrevistou Nicolás Maduro, José Mujica, Evo Morales e outros protagonistas da região. Seu método é sempre o mesmo: menos confronto teatral, mais tempo para que o entrevistado revele suas próprias contradições.

Agora, ele enfrenta talvez o tema mais delicado de sua carreira. "No me llame Ternera", disponível na Netflix, mergulha em uma das feridas mais profundas da história recente da Espanha: o terrorismo da ETA.

Fundada em 1959, ainda durante a ditadura de Francisco Franco, a ETA ("Euskadi Ta Askatasuna", ou "Pátria Basca e Liberdade") nasceu como um movimento nacionalista basco, mas transformou-se em uma das organizações terroristas mais violentas da Europa Ocidental.

Em mais de cinco décadas de atentados, assassinatos e sequestros, matou 853 pessoas —entre policiais, militares, políticos e civis— e deixou milhares de feridos antes de abandonar definitivamente a luta armada, em 2011, e dissolver-se formalmente em 2018.