A explosão global das pesquisas com psicodélicos vem sendo acompanhada por outro movimento, menos visível e mais incômodo: o avanço de pedidos de propriedade intelectual inspirados em saberes tradicionais indígenas. Embora muitas dessas patentes não envolvam diretamente plantas amazônicas, especialistas alertam que o problema não pode ser reduzido à contagem de registros ativos. O que está em disputa, argumentam, é a transformação de sistemas ancestrais de conhecimento em produtos biomédicos controlados por empresas, frequentemente sem o consentimento prévio dos povos envolvidos e sem repartição de benefícios.
“O problema central não é apenas quantitativo, mas estrutural”, avalia Fernanda Gebara, advogada e antropóloga, pesquisadora honorária na Universidade de Exeter, na Inglaterra. Segundo ela, existe um número crescente de patentes que se apropria de conhecimentos associados a medicinas dos povos originários ou utiliza esses saberes como base para o desenvolvimento de novas formulações e aplicações biomédicas.
No caso da ayahuasca, o debate ganhou força nos últimos anos com a expansão do mercado de terapias psicodélicas e o interesse crescente de universidades, startups de biotecnologia e fundos de investimento em substâncias como DMT, psilocibina e MDMA. Nesse cenário, aumentaram também os pedidos de propriedade intelectual relacionados a formulações farmacêuticas e aplicações terapêuticas derivadas de formas tradicionais de relação com as plantas.














