Nas primeiras semanas na Índia houve muito que me marcou. Mas nada tanto quanto um momento específico, numa cerimónia numa escola primária.As crianças estavam alinhadas, vestidas com cuidado para a ocasião. Mas algo destoava. Ao olhar melhor, percebi que muitas tinham o rosto coberto de maquilhagem branca. Um branco opaco, artificial. Perguntei a uma professora e a resposta foi: “Os pais acham que ficam mais bonitas assim.”Foi a primeira vez que senti o peso do colorismo na Índia. O peso da preferência pela cor de pele mais clara.A história é mais complexa. Textos antigos Hindus como o Mahabharata e o Ramayana retratam heróis de pele escura, e o negro era celebrado como símbolo de beleza. Mas foi durante o domínio britânico que essa hierarquia ganhou uma nova dimensão.Após cerca de duzentos anos de colonização, a sociedade indiana havia sido profundamente transformada: os recursos foram explorados, o sistema de castas reforçado e a pele clara passou a ser símbolo de autoridade. Os britânicos ocupavam grande parte dos cargos de poder e favoreciam indianos de tons mais claros, aprofundando uma consciência social cada vez mais racializada E as suas consequências continuam visíveis hoje..Depois veio o capitalismo e com ele uma nova camada de reforço. Basta olhar para a publicidade nas cidades indianas. Poucos minutos permite perceber quem protagoniza o marketing: ou indianos com pele muito clara ou modelos ocidentais.Por isso o mercado de produtos de clareamento de pele continua a crescer, sendo atualmente estimado em 450 milhões de dólares. Também os anúncios matrimoniais destacam frequentemente “fair skin” como característica desejável.Como explica a ativista Kavitha Emmanuel, fundadora do movimento Dark is Beautiful, não se trata apenas de estética, mas de poder, estatuto e de quem é visto como superior. O colorismo é mais uma consequência do colonialismo, que explorou e moldou o mundo à sua imagem, incluindo a forma como os povos colonizados passaram a ver-se a si próprios. Essas marcas não desapareceram. Persistem nas mentalidades, na consciência coletiva e também na mente dos países colonizadores.Ainda hoje, resquícios de uma mentalidade de superioridade persistem na mente europeia, muitas vezes de forma inconsciente, como herança de séculos de domínio físico, económico e psicológico sobre o Sul Global. Queiramos ou não, na mente dos europeus reside uma lista de preconceitos sobre os países ditos “subdesenvolvidos”: que são desorganizados, que precisam de ser guiados. Raramente nos perguntamos de onde vêm esses julgamentos.Em Portugal, país que durante séculos construiu riqueza sobre a exploração de outros povos, continua a existir ambiguidade na forma como olhamos para os descendentes dessas populações. Acolhemos a sua cultura, música e comida, mas continuamos a questionar a sua pertença ou o seu direito a serem iguais.O imigrante que vem da Índia, do Brasil ou de Angola carrega frequentemente sobre os ombros não apenas a precariedade económica, mas também o peso de um olhar que o coloca, subtilmente, numa posição de inferioridade.Não é possível responsabilizar individualmente quem viveu noutro tempo. Mas há um dever coletivo de reconhecer esse legado e recusar que ele continue a reproduzir-se sob novas formas.O desafio é identificar os preconceitos que ainda residem na nossa mente e perceber a sua origem. Descolonizar a nossa psique. Pois a pegada ocidental no mundo foi, e continua a ser, demasiado pesada para continuar a ser ignorada.