Nick Thompson não perde o fôlego. Depois de passar por Wired e New Yorker, ele transformou a revista The Atlantic em uma operação lucrativa em apenas três anos. Quando o CEO assumiu, em 2021, a publicação de 169 anos tinha um rombo de US$ 20 milhões. Hoje, estima-se que o lucro anual fique entre US$ 20 milhões e US$ 30 milhões. Ele concilia o cargo executivo com a apresentação do podcast “The Most Interesting Thing in AI” (A coisa mais interessante em IA, em tradução livre) e com palestras pelo mundo sobre jornalismo, tecnologia e negócios — no dia 10 de junho ele estará no Web Summit Rio. Surpreendentemente, Thompson também é ultramaratonista e detém o recorde americano dos 50 km para pessoas entre 44 e 49 anos (3:04:36). No entanto, ele acredita estar diante de um desafio maior do que qualquer prova que já enfrentou: ser jornalista e executivo de mídia na era da inteligência artificial (IA). Antes da viagem ao Rio, o executivo conversou com o GLOBO e analisou os impactos de sistemas de IA para o setor, contou como a The Atlantic atravessa o momento e apontou o papel dos governos para garantir uma relação justa entre big techs e veículos de jornalismo. Apesar de ser um entusiasta da tecnologia, ele fez uma ressalva importante: “o mundo está irritado com a IA”. Nick Thompson, CEO da revista The Atlantic, em evento em Toronto junho de 2023 — Foto: Chloe Ellingson/Bloomberg Leia abaixo os principais momentos da conversa. É mais difícil correr uma ultramaratona ou ser jornalista na era da IA? É muito mais difícil ser jornalista na era da IA, porque o equivalente aproximado seria se você estivesse correndo uma maratona e não soubesse ao certo se haveria uma subida de 1.000 metros no quilômetro 38, se o percurso teria realmente 42 km ou se ele se estenderia para algo como 85 km ou fosse encurtado para 30 km. Então, isso é mais ou menos o equivalente. Qual é a coisa mais interessante na IA para o jornalismo? São três: a maneira como criamos reportagens — acho que a IA pode ser uma ferramenta incrível para encontrar matérias, descobrir novos fatos ou identificar novos lugares para buscar informações. Então, há a maneira como ela muda as matérias. Não estou falando de texto e edição, mas, sim, a parte de encontrar coisas. Depois, há a questão de como os leitores chegam até nós. À medida que a web muda e o consumo de notícias muda, como as pessoas nos encontram? Elas nos encontram por meio de agregadores? Elas nos encontram por meio de agentes? Elas nos encontram por meio de resumos? A IA ajuda a descobrir como levamos nossas informações às pessoas. E a terceira coisa é: à medida que a web muda de um ambiente dominado por humanos para um dominado por agentes, que tipo de modelo de negócios podemos criar para sobreviver e prosperar nesse cenário? E qual é a pior coisa na IA para o jornalismo? Algumas coisas são realmente ruins. Uma é que a linha entre o real e o falso está ficando cada vez mais tênue. E quando as pessoas não puderem confiar em nada na web, vai ser mais difícil ser jornalista. Você vai entrar na internet, vai ver uma informação e não vai ter ideia de quem é. E a indústria do jornalismo vai fazer o possível para associar marcas, nomes e reputação ao trabalho. Vamos fazer o possível para validar a notícia. Mas a internet vai ficar bem estranha. Você vai ouvir vozes, não vai saber se são humanas, não vai saber se são IA. A linha entre o que é humano e o que não é humano vai ficar confusa e vai ficar muito complicado. A segunda coisa que é ruim é que o modelo atual de negócios se baseia em links. Toda essa estrutura vai mudar e, assim, algumas empresas vão prosperar, vão descobrir qual é a nova estrutura e como ganhar dinheiro, e outras vão ficar em apuros. A IA vai eliminar empregos nas redações ou criar novas funções? Como The Atlantic está ajudando sua própria equipe a navegar por essa transição? Meu palpite é que ela cria muito mais empregos do que elimina, e que a demanda mundial por informação de alta qualidade é quase infinita. Portanto, qualquer ferramenta que ajude as pessoas a fornecer informação de alta qualidade torna os indivíduos mais valiosos e, consequentemente, faz com que as empresas queiram empregar mais deles. A IA explodiu há três anos e nossa equipe se expandiu bastante. Todas as funções se expandiram. Temos muito mais redatores, temos muito mais engenheiros. Em certas funções, certas categorias, certas tarefas, a IA pode nos substituir. Mas, em geral, acho que isso criará oportunidades. Também acho que criará oportunidades para jornalistas, como startups. Quando os jovens me perguntam “devo entrar na mídia? É assustador”, digo “você deve entrar na mídia e descobrir algo que você possa fazer que não poderia fazer há cinco anos e usar essas ferramentas para construir algo criativo”. Sou otimista no geral, mas acho que, para cada organização, haverá um período de mudança e de complexidade. De que maneiras The Atlantic está incorporando a IA ao seu fluxo de trabalho? Quais são os resultados? Não podemos falar muito, mas posso contar algumas coisas. Estamos usando IA para descobrir como tornar nosso marketing pago mais eficiente. Pegamos sinais da internet aberta sobre o que interessa às pessoas e, a partir desses sinais, descobrimos quais matérias do The Atlantic Archive podem ser interessantes para elas. Isso vai além do que podíamos fazer antes Estamos usando IA na equipe de engenharia para identificar tickets, tarefas antigas que ninguém fez. Por exemplo, “por favor, torne a imagem visível para pessoas com deficiência visual em dispositivos Android”. São coisas que são realmente boas, mas simplesmente não foram feitas, porque você tem um número limitado de engenheiros. Assim, você tenta filtrar centenas ou milhares de tickets antigos, descobre quais podem ser resolvidas com o Claude Code, e resolve o resto com o suporte ao cliente. Você mantém pessoas para tarefas complexas, coisas importantes. Quando você administra um site com paywall, precisa de uma equipe de suporte ao cliente realmente boa. Porque se alguém for desconectado, você precisa ser capaz de ajudá-lo a fazer login novamente. Então, a IA nos permitiu ser muito mais eficientes nisso. Educar as pessoas sobre o uso de IA já parece ser um grande desafio. Há algum caso de uso de IA por The Atlantic que não deu certo? Tive uma percepção importante que vai ao encontro do que você está dizendo. As pessoas não gostam de IA. O mundo está irritado com a IA, então se você lança um mecanismo de busca e diz: “esse é o nosso novo mecanismo de busca com IA”, as pessoas vão ficar irritadas. Mesmo que ele funcione melhor. Por isso, não cometemos o erro de lançar produtos de IA voltados para o público, embora eu achava que pudéssemos. Percebemos que há questões delicadas sobre como desenvolvê-los. Depois, há questões delicadas sobre como os usuários os utilizam. E também há questões delicadas sobre como eles funcionam. Você não acessa The Atlantic e sente que está interagindo com IA. Temos uma regra muito rígida de que nossos redatores nunca usem IA, o que considero extremamente importante. Eles podem usá-la para encontrar matérias, obviamente, e podem usá-la para aprender coisas novas, mas não podem usá-la para escrever. Então, acho que evitamos algumas das armadilhas dentro dos domínios em que a utilizamos. Há um problema interessante. Uma das coisas que a IA faz é permitir que todos — isso não é específico da mídia, é específico do trabalho — tenham uma visão um pouco mais ampla do que fazem. Ela permite que os designers sejam um pouco engenheiros e que os engenheiros sejam um pouco designers. Se uma publicação decide criar produtos de IA para o público, qual é a melhor maneira de abordar isso? Bem, se você quer a satisfação do usuário, não conte a eles (risos). Mas eu acho extremamente importante que você fale. E por isso nós contamos quando usamos IA. A única ferramenta voltada para o leitor em que usamos IA é para ler em voz alta um trecho de nossas matérias. E dizemos às pessoas: “Ei, essa é uma voz de IA”. E se elas não gostam, paciência. É muito importante ser claro e honesto sobre o que você está fazendo, mas entendo por que algumas pessoas não contam. Como o jornalismo deve tratar direitos autorais e propriedade intelectual na era da IA? Há um problema enorme: as empresas de IA treinaram seus modelos com todos os nossos dados, que eram protegidos por direitos autorais. Elas violaram isso, muitas vezes desafiando abertamente nossas regras, e construíram enormes modelos de negócios que competem conosco. Há uma série de processos judiciais, e estamos envolvidos nisso. Precisamos analisar cuidadosamente o que a indústria de IA fez, ver o que a prometeram fazer em troca e, então, definir uma estratégia, sejam parcerias, bloqueios ou processos. Toda empresa de mídia precisa ter essa estratégia. Também acho importante que os governos analisem isso. A lei de direitos autorais não está atualizada para a era da IA, levando em conta como essas ferramentas funcionam. E acho que os consumidores precisam pensar com cuidado. Se eles se importam com a sobrevivência das artes criativas, da mídia e dos indivíduos — músicos, poetas —, eles deveriam usar modelos de IA que levem essas questões a sério. Há toda uma série de medidas que podem ser tomadas pela sociedade, pelo governo, pela mídia, pelas empresas de IA e pelas pessoas com senso ético para reverter essa infeliz sequência de eventos. É muito difícil imaginar como os governos de diferentes países podem reagir quando as grandes empresas de tecnologia são aliadas do governo americano. Sim, é difícil. Mas eu diria que se o Brasil aprovasse uma lei, que determinasse, por exemplo, que todas as empresas de IA que operam no país têm que divulgar os dados com os quais treinam seus modelos, você divulgaria isso para o mundo. As empresas IA não querem que as pessoas saibam o quanto elas roubaram. Então, algum governo precisa ter a coragem de tornar isso obrigatório. Uma das coisas sobre a regulamentação internacional é que não se trata apenas dos EUA, não se trata apenas da China. As maiores empresas estão sediadas nesses dois países. Mas a regulamentação global pode realmente desempenhar um papel importante. E estamos começando a ver leis surgindo no Reino Unido, na Austrália. Eu não sei o suficiente sobre política brasileira, mas o Brasil poderia fazer muito pelo mundo da IA. Em relação a acordos entre empresas específicas de IA e de mídia, isso não parece ser a salvação para o jornalismo. Há algo melhor do que isso para os veículos? Acordos específicos não são uma solução para todo o jornalismo. Espero que sejam o primeiro passo em direção a isso. A solução é que haja um estágio final em que as grandes empresas de IA construam um modelo que proporcione uma troca justa com as empresas que lhes forneceram as informações. Assim era na internet antiga: o Google extraía muito valor ao indexar os sites, mas também fornecia muito valor porque direcionava as pessoas para o seu site. Na IA atual, eles tiram muito valor dos sites sem dar nada em troca. Algo precisa mudar. Eles precisam construir um novo tipo de mecanismo de busca de IA que direcione as pessoas, que impulsione o reconhecimento da marca, que leve as pessoas a assinarem, que ajude os anunciantes, que crie micropagamentos dentro de sistemas autônomos. É preciso alcançar equilíbrio para manter as indústrias criativa e de mídia prosperando. O objetivo final não é um montante fixo aqui, um montante fixo ali, um montante fixo acolá. O objetivo final é um modelo que simplesmente funcione e seja justo. O Sr. estava na Wired durante a produção da clássica capa “The web is dead”, em 2010. A IA é o golpe final na web aberta? Não é. Acho que a web vai mudar drasticamente, e acho que as formas de navegação vão mudar drasticamente, mas a web aberta ainda vai existir. O fato de ter os meus agentes em funcionamento me convenceu disso, porque a web precisará existir como fonte de informação para os agentes e para os humanos. Como serão os novos modelos de negócios e a nova navegação, não sei. Quando fizemos a matéria, era aquele momento em que as redes peer-to-peer estavam surgindo. Todo mundo estava migrando para a economia baseada em aplicativos. Lembro que rolou um grande debate se, ao começar a desenvolver aplicativos, deveríamos fechar o site. E eu disse: Não, a gente faz as duas coisas. A web mudou muito naquela época. Vai mudar muito agora, mas não acho que vai morrer. Já há muitos mais sites criados com IA que passam por veículos confiáveis, além do aumento na sofisticação de deepfakes. Como The Atlantic está se preparando para esses ataques à credibilidade do jornalismo? Existem ferramentas que você pode usar, como a Reality Defender que faz um trabalho decente checando se algo é real ou não. É preciso ter muito cuidado para garantir que você mantenha sua integridade, que tenha regras contra conteúdo gerado por IA, que esteja constantemente em alerta, que não seja alvo de falsificação, que não seja hackeado. Você precisa defender sua reputação. É preciso examinar tudo com muito cuidado e usar ferramentas de IA para identificar quem está falsificando seu conteúdo. E é preciso ter uma equipe jurídica muito forte que saiba como enviar as notificações. É preciso reconhecer que não é uma batalha em que você vai vencer sempre. Mas é como a cibersegurança. Você sabe que existem pessoas mal-intencionadas por aí e faz o possível para combatê-las. Quais ferramentas de IA você usa diariamente e para quais tarefas específicas? A privacidade é muito importante, especialmente quando se lida com documentos corporativos. Por isso, uso as contas corporativas que temos, que são o Claude Code, da Anthropic, e o Codex, da OpenAI. Também uso o Gemini em coisas específicas de síntese, mas não uso nada de trabalho porque não temos o mesmo nível de proteção de privacidade. Experimento todos os outros modelos. Já usei o Grok, da xAI, modelos da Meta Facebook e até modelos chineses no modo incógnito, para não haver vazamento de dados. Uso também o Notebook LM quando estou tentando manter um sistema baseado em documentos muito específicos. Eu executo sistemas agênticos do Claude e do Codex.