No momento em que o governo tira de cena a “taxa das blusinhas”, o varejo de moda brasileiro dobra a aposta em peças de maior qualidade, alinhado a uma mudança permanente no comportamento do consumidor, que passou a valorizar roupas criadas para durar mais tempo. Redes como C&A, Renner e Riachuelo, que já foram associadas ao fast fashion, ampliaram investimentos em tecidos mais nobres como algodão pima (muitas vezes chamado de “peruano”), linho e até materiais tecnológicos, que não amassam. A estratégia também busca a diferenciação do modelo de plataformas digitais asiáticas como Shein e Shopee, que investem na produção em larga escala, muitas vezes com materiais menos duráveis. Qualidade passou a pesar quase tanto quanto preço no momento da compra de roupas, mostra pesquisa de mercado da Opinion Box: 74% dos consumidores citam preço como fator importante, enquanto 70% apontam a qualidade. Modelos vestem peças básicas encorpadas da Riachuelo — Foto: Divulgação Para Jean Paul Rebetez, sócio-diretor da Gouvêa Consulting, a mudança elevou o patamar das varejistas nacionais, que deixaram de disputar só o mercado de moda de consumo rápido e passaram a ganhar espaço também entre consumidores de maior renda: — Essas marcas começam a atingir outras classes, como A, B, e passam a fazer parte do guarda-roupa das pessoas com mais presença. Assim, o antigo 100% poliéster, alvo de críticas das blogueiras de moda por ser supostamente menos respirável, perde espaço para itens de maior valor agregado. ‘Básicos elevados’ Diretora Criativa de Produto e Estilo da Riachuelo, Constanza Pedrassani diz que a empresa ampliou o uso de fibras premium, como algodão pima, e tecidos tecnológicos, sobretudo nas categorias de “básicos elevados”, diante da demanda de um consumidor mais atento a questões como qualidade, toque e durabilidade. Para Constanza, em algumas categorias, especialmente as básicas, materiais premium começam a deixar de ser apenas um diferencial e se consolidam como expectativa do consumidor, que é cada vez mais diversificado. Maya Mattiazzo, professora do Hub de Luxo da ESPM, afirma que, historicamente, uma parcela relevante do público das grandes varejistas buscava principalmente acesso a crédito, por meio dos cartões próprios. As lojas passam a atrair consumidores interessados no equilíbrio entre qualidade e preço acessível, muitas vezes obtido por meio da mistura entre insumos nobres e outras fibras. Além do algodão pima, o linho ganhou espaço em coleções voltadas para um visual mais atemporal, enquanto peças 100% algodão passaram a ser sinônimo de qualidade em camisetas básicas. Já os tecidos tecnológicos avançaram em linhas casuais e esportivas, com atrativos como secagem rápida e maior resistência. Azzas tem novo capítulo da disputa judicial entre seus principais sócios. Entenda o que está em jogo Em novembro, a Levi Strauss (dona da marca Levi’s) inaugurou uma loja única no país para marcar a entrada no segmento premium, com a nova linha Blue Tab, produzida com denim japonês de qualidade, conhecido pela textura encorpada e tingimento artesanal que produz tonalidades únicas. Modelos vestem peças da linha Blue Tab, da Levi's — Foto: Divulgação Estar “fora de moda” ou da última tendência deixou de ser uma questão para uma parte dos consumidores, que dão prioridade a peças que podem durar mais no guarda-roupa. Na Reserva, a diretora de Produto, Adriana Costa, avalia que o consumidor passou a valorizar peças que mantêm boa aparência ao longo do tempo e transmitem a sensação de estar bem-vestido mesmo após vários usos. A marca tem buscado se diferenciar com variações dentro do algodão pima. As apostas vão desde o Pima Diagonal, com tecido mais encorpado e textura, ao Pima Tech, que leva elastano e oferece mais conforto. A próxima linha da Reserva deve incluir ainda algodão egípcio, outro material premium. Em fevereiro, a marca lançou uma camisa tecnológica que promete toque gelado, chamada Wave. A camisa social poderia atuar como um regulador de calor, ao dar sensação de frescor ao vestir. Indústria têxtil nacional critica fim da 'taxa das blusinhas', anunciada por Lula: 'decisão extremamente equivocada', diz Abit Essa combinação de praticidade e pegada tecnológica está na raiz da Insider, marca que nasceu em 2017 com foco em peças desenvolvidas a partir de fibras tratadas para oferecer conforto térmico e resistência ao amassado. — A Insider olha para a roupa como um item de alta frequência de uso. Entendemos que a forma vai seguir a função, e a função precisa ser algo indispensável — diz o CEO, Yuri Gricheno. Base de borra de café A empresa de e-commerce também vem investindo na inovação como forma de diferenciação. Recentemente, lançou um tecido produzido à base de borra de café e passou a trabalhar com a finlandesa Spinnova, que desenvolveu uma fibra regenerada considerada uma das mais sustentáveis do mundo. Gricheno aposta nesses tecidos, mais do que no hype do algodão pima. Os insumos premium servem para criar uma faixa intermediária, com produtos que não são os de entrada, mas que também não saem do orçamento da clientela. Assim, é possível atender diferentes perfis dentro do portfólio. — O consumidor continua sensível a preço, então não se trata de transformar todo o mix em premium, mas de entregar percepção de valor real em diferentes categorias e faixas de preço. Existe espaço tanto para matérias-primas mais sofisticadas quanto para produtos mais acessíveis — diz Constanza, da Riachuelo. Maya entende que a internet e o maior acesso à informação ampliaram o conhecimento dos consumidores sobre produtos e materiais antes restritos a um público mais especializado: — Hoje há mais coisas para se consumir. Nosso dinheiro vai sendo dispersado, para além da alta do nosso poder de compra. A conta (no momento da compra) considera, agora, quanto vou pagar e quanto tempo o produto vai durar, mantendo o aspecto de novo. A Levi Strauss lançou recentemente no Brasil uma coleção de camisetas feitas com algodão pima. Segundo Thiago Leão, gerente de Produtos da empresa no Brasil, a marca tenta deslocar a comunicação do preço para abordar conforto, durabilidade e qualidade: — Globalmente o consumidor está mais atento à qualidade e à durabilidade das peças, com o objetivo de evitar gastos desnecessários, ao mesmo tempo em que mantém um guarda-roupa mais coeso e funcional. No caso da Levi’s, o fio é importado do Peru, e o tecido é produzido no Brasil. Na Reserva, algumas peças, como camisetas básicas, usam fio peruano com malha e confecção nacionais. Linhas como Pima Tech e Pima Diagonal são importadas do Peru. A estratégia de diferenciação tende a ganhar peso no momento em que a “taxa das blusinhas” (que cobrava imposto de importação de produtos até US$ 50) caiu por terra, em uma decisão do governo que desagradou ao varejo local. O preço pode ser mais salgado que o das plataformas, mas a promessa é acompanhar o consumidor por muito mais temporadas. Importação de pima dispara A mudança no comportamento do consumidor impulsionou uma corrida pelo algodão pima e disparou as importações brasileiras de peças e fios produzidos no Peru. Levantamento da empresa de inteligência de mercado IEMI, com base em dados do Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), mostra que o valor das importações de vestuário de algodão peruano cresceu 154,7% entre 2020 e 2025. O pima é uma variedade de algodão de fios longos que permite produzir tecidos mais suaves ao toque, menos propensos a formar “bolinhas” e mais resistentes ao desgaste. Embora também seja cultivado nos EUA, sua origem, o Peru se consolidou como referência mundial na produção — por isso, algodão pima muitas vezes é chamado de “peruano”. Segundo Fernando Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), o Brasil importou 22,6 mil toneladas de vestuário de malha de algodão em 2024, sendo 12% desse volume vindo do Peru. Embora nem toda a produção peruana seja de pima, a fibra predomina nas peças exportadas do país ao Brasil. Alta competitividade Mesmo mais caro que o algodão convencional, o produto consegue manter competitividade graças à escala, produtividade, logística e menor custo sistêmico da cadeia produtiva, diz Pimentel. Para ele, a aposta da indústria brasileira em produtos premium também é uma resposta ao avanço das plataformas asiáticas de comércio eletrônico: — Parte da indústria procura competir por qualidade, design, sustentabilidade, rastreabilidade, atendimento rápido e valor adicionado. É uma estratégia correta, sem dúvida nenhuma, mas não substitui a necessidade de uma dinâmica tributária e regulatória do país com os outros concorrentes. Enquanto isso, o Brasil corre atrás de um algodão de fibra longa para chamar de seu. O país já chegou a produzir, no Nordeste, algodão com características semelhantes às do pima, mas a cultura foi eliminada após uma praga. A Embrapa desenvolve um similar nacional de fibra longa e extralonga, voltada à produção de tecidos finos e de maior valor. A variedade está em fase de desenvolvimento e adaptação para cultivo em larga escala. Segundo o pesquisador João Paulo Saraiva, da Embrapa Algodão, os testes devem avançar para experimentos maiores nos próximos três anos. Hoje, a planta tem limitações que dificultam o uso de colheitadeiras. Saraiva afirma que há interesse dos produtores porque fibras mais longas são escassas no mercado e conseguem preços mais altos. Enquanto um algodão convencional custa US$ 0,80 por libra-peso, o pima chega a US$ 1,30. O foco da pesquisa, diz, está em elevar a produtividade da planta.
Menos poliéster, mais ‘algodão peruano’: tecidos nobres e roupas mais duráveis ganham espaço nas lojas
Coleções ampliam espaço de peças com algodão pima, linho e materiais tecnológicos em uma estratégia de diferenciação das plataformas on-line













