Bloqueio de R$ 22,1 bilhões é dado importante, mas revela que governo adiou ajuste para depois da desincompatibilização dos ministros candidatos O ministro Dario Durigan, da Fazenda, durante entrevisa sobre relatório com desempenho das contas públicas — Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 22/05/2026 - 17:26 Governo bloqueia R$ 22,1 bi em despesas, adia ajustes fiscais importantes O governo brasileiro anunciou um bloqueio de R$ 22,1 bilhões nas despesas, surpreendendo pelo tamanho do corte, mas adiando ajustes fiscais importantes. Embora o déficit primário projetado permaneça estável, a estratégia de gestão fiscal mantém um viés expansionista, com ajustes adiados até após a desincompatibilização dos ministros candidatos. A previsão de receita é mais cautelosa, evitando excessos em ano eleitoral. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O segundo relatório bimestral de avaliação de receitas e despesas surpreendeu pelo tamanho do bloqueio imposto às despesas e também por uma cautela maior com a projeção de receitas para 2026. À primeira vista, um corte grande como o anunciado e uma previsão de arrecadação cautelosa parecem demonstrar um maior comprometimento fiscal para esse ano, mas é preciso olhar os dados da apresentação com cuidado para perceber que não há uma mudança relevante na estratégia de gestão das contas públicas. Nesse sentido, o dado mais relevante é que o déficit primário estimado ficou praticamente estável, com uma discretíssima piora de R$ 500 milhões, para R$ 60,3 bilhões. A meta de resultado só é cumprida por conta das deduções legais permitidas (como pagamento de parte das sentenças judiciais), que somam R$ 64,4 bilhões. O saldo entre receitas e despesas, sem considerar os descontos, é o que efetivamente importa do ponto de vista econômico, tanto para a trajetória da dívida como para a análise do grau de estímulo que a atuação do governo federal está causando para a atividade econômica. É importante pontuar que, pelo menos com o que está público, o governo segue ancorando sua atuação mirando no piso da meta de resultado, que é um saldo zero (ressalvadas as deduções permitidas). É uma prática controversa, já questionada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e também por diversos economistas, mas que o governo segue fazendo. E implica um esforço menor ao longo da execução do ano, o que faz diferença, especialmente em ano eleitoral. Mas cabe reconhecer que, pelo menos até o momento, também há algum esforço sendo feito. O bloqueio adicional de R$ 22,1 bilhões, levando os cortes nos gastos livres (discricionários) do governo para R$ 23,7 bilhões, não é pouca coisa e pode dificultar a vida de alguns órgãos do governo. Além disso, o governo impôs um "faseamento" de despesas, que dificulta a antecipação de gastos pelos ministérios. O motivo principal desse forte corte foi o aumento das despesas projetadas do Benefício de Prestação Continuada (BPC) em R$ 14,1 bilhões e da Previdência em R$ 11,8 bilhões. No primeiro caso, segundo o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, foi adequar ao ritmo que vinha desde o segundo semestre do ano passado. Na Previdência, o motivo foram as medidas de redução de fila. Nos dois casos, porém, fica evidente que o governo adiou um ajuste que deveria ter sido feito no primeiro relatório, em março, quando ainda estavam nos cargos os ministros que logo depois deixariam os cargos para disputar as eleições: Fernando Haddad (Fazenda) e Simone Tebet (Planejamento). No lado da receita, o governo fez uma opção por maior conservadorismo nas projeções. Sem revelar o tamanho exato do ganho extra com o petróleo esperado para o ano, o governo aproveitou as entradas maiores de royalties e participações especiais para retirar da conta um leilão de campos de petróleo que estava previsto para render R$ 31 bilhões aos cofres federais. A alegação do ministro da Fazenda, Dario Durigan, foi de que questões operacionais estão afetando o calendário e, como há receitas suficientes para cumprir a meta, o leilão foi retirado. Mas a instabilidade do preço do petróleo também afeta a disposição das empresas para entrar no certame, mesmo com o valor mais alto da commodity, acrescentou Moretti. Nas receitas administradas, de outro lado, pouco foi incorporado da alta do petróleo, segundo o ministro do Planejamento. Isso coloca um viés de alta nas projeções de arrecadação e uma possibilidade mais concreta de melhora no resultado primário até o fim do ano - embora o desempenho das despesas precise ser observado e pode mudar isso. Conforme O GLOBO mostrou, no cenário conservador, a arrecadação extra com petróleo em suas diversas frentes esperada pelo governo é de ao menos R$ 40 bilhões, mas o número pode ficar bem acima disso. Tudo depende da evolução da guerra e de um imprevisível mercado financeiro. A cautela nas projeções é bem-vinda para uma gestão fiscal prudente. Mas também tem outro objetivo: evitar mostrar uma sobra de receitas que reforce ímpetos gastadores de outras áreas do governo e, principalmente, do Congresso. Nesse sentido, vale lembrar que o governo não incorporou nesse relatório as novas subvenções anunciadas para a gasolina e para o diesel. Mesmo assim, a linha de despesas de crédito extraordinário, que não contam para o teto de gastos, já subiu de R$ 15,9 bilhões para R$ 19,4 bilhões. Entre altos e baixos, o relatório divulgado merece elogio pelo maior realismo. Mas não esconde o viés expansionista da política fiscal desse ano eleitoral, mesmo que, há que se reconhecer, não esteja havendo uma farra similar à de 2022.
Corte de gastos surpreende, mas o viés de expansão fiscal mora nos detalhes
Bloqueio de R$ 22,1 bilhões é dado importante, mas revela que governo adiou ajuste para depois da desincompatibilização dos ministros candidatos














