A líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen, afirmou nesta sexta-feira (22) que retiraria a França da estrutura de comando militar integrado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) caso seja eleita presidente no próximo ano. A posição foi classificada pelo chanceler do país, Jean-Noel Barrot, como “irresponsável”. Le Pen, cuja candidatura presidencial de 2027 depende de uma decisão judicial de recurso prevista para este ano, afirma há tempos que a participação francesa na estrutura de comando da aliança compromete a independência do país. Ela reiterou sua posição à emissora BFM TV enquanto ministros da Otan se reuniam na Suécia. “Temos de sair do comando integrado da Otan. Devemos permanecer na Otan, mas deixar o comando não impede a interoperabilidade com forças aliadas”, afirmou, criticando o que chamou de dependência europeia das decisões dos Estados Unidos. “Na realidade, dependemos das decisões de Donald Trump, o que é lamentável”, disse Le Pen, cujo partido Reunião Nacional lidera pesquisas de opinião a cerca de um ano da eleição presidencial. O Comando Militar Integrado da Otan é o sistema permanente de comando da aliança, criado para garantir que as forças militares dos 32 países-membros possam atuar rapidamente como uma força única. Ao chegar à reunião da Otan na Suécia, Barrot afirmou que, diante da revisão do nível de engajamento dos EUA na Europa, é mais importante do que nunca que França e parceiros “afirmem sua visão, desenvolvam suas capacidades — em resumo, ‘europeizem’ a Otan”. “Os apelos de certas figuras políticas francesas pela saída da Otan são obviamente irrazoáveis e totalmente irresponsáveis”, disse Barrot, acrescentando que aliados “constantemente assediados pela agressão russa” veriam isso como uma traição. “Autonomia estratégica” Jordan Bardella, líder do Reunião Nacional e possível candidato presidencial, adotou tom mais cauteloso que Le Pen em março, ao afirmar que não retiraria a França do comando integrado em tempos de guerra. O debate sobre a Otan é antigo na França, país que tradicionalmente valoriza a chamada “autonomia estratégica”. O presidente Emmanuel Macron afirma que a Europa precisa reduzir sua dependência dos EUA em segurança e defesa. O ex-presidente Charles de Gaulle retirou a França do comando integrado da Otan em 1966, decisão revertida em 2009 durante o governo Nicolas Sarkozy. Diplomatas afirmam que uma eventual liderança francesa mais distante das estruturas da Otan é acompanhada atentamente por capitais europeias já preocupadas com o compromisso de longo prazo dos EUA com a segurança do continente. A maioria dos blocos políticos franceses, incluindo o Reunião Nacional, apoiou nesta semana o aumento dos gastos militares na Câmara baixa do Parlamento, refletindo um movimento mais amplo para fortalecer as Forças Armadas francesas enquanto prossegue a guerra da Rússia na Ucrânia.